Foto: Vinicius Becker (Diário)
Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), 727 mil pessoas morreram por suicídio no mundo em 2021. No Rio Grande do Sul, a taxa de mortalidade por suicídio chegou a 14,87 a cada 100 mil habitantes em 2024.
Falar sobre saúde mental também passa por reconhecer quando um sofrimento que poderia parecer passageiro começa a interferir na rotina, nos relacionamentos e na qualidade de vida. Durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio, o Diário ouviu especialistas para entender o que pode estar por trás dos índices elevados registrados no Rio Grande do Sul, que historicamente apresenta os maiores índices de mortalidade por suicídio do país.
Em 2024, a taxa foi de 14,87 mortes por 100 mil habitantes, segundo o boletim epidemiológico mais recente sobre o tema, publicado pela Secretaria Estadual da Saúde em setembro de 2025. Na Região Central, a área de abrangência da 4ª Coordenadoria Regional de Saúde (4ª CRS), com sede em Santa Maria e que reúne 33 municípios, a taxa foi de 15,81. Em Santa Maria, o índice foi de 12,84.
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Os indicadores ajudam a dimensionar o problema, mas não devem ser interpretados isoladamente. O boletim epidemiológico da Secretaria Estadual da Saúde caracteriza o suicídio como um fenômeno complexo e multidimensional, relacionado à interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, culturais e econômicos.
Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), 727 mil pessoas morreram por suicídio no mundo em 2021, o equivalente a uma taxa de 8,9 mortes a cada 100 mil habitantes. O número de mortes foi superior ao registrado por HIV/Aids, câncer de mama ou conflitos armados. Cerca de 73% dos óbitos ocorreram em países de baixa e média renda. Entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio aparece como a terceira principal causa de morte no mundo.
A partir desse indicador, número de mortes a cada 100 mil habitantes, é possível observar também o cenário nacional e regional. No Brasil, dados do Atlas da Violência, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apontam taxa de 9,96 em 2024.
Perfil das notificações e dos óbitos
Os dados também mostram diferenças importantes conforme sexo e idade. Em 2024, 68,8% das notificações de lesão autoprovocada no Rio Grande do Sul envolveram pessoas do sexo feminino. Entre elas, as maiores taxas estavam nas faixas mais jovens: 306,48 entre meninas de 10 a 14 anos e 471,79 entre adolescentes de 15 a 19 anos. Entre os homens, os maiores índices desse tipo de notificação ocorreram dos 15 aos 19, com 162,69 registros.
Quando o recorte passa para a mortalidade por suicídio, porém, o perfil muda. Cerca de 79% das mortes registradas no Estado em 2024 foram de homens. Entre eles, a taxa aumenta progressivamente com a idade e chega ao maior índice entre aqueles com 80 anos ou mais: 49,69. Entre as mulheres, a maior taxa foi observada dos 60 aos 69 anos, com 8,35.
Indicador | Homens | Mulheres |
Maior taxa de notificação de lesão autoprovocada | 15 a 19: 162,69 | 15 a 19 anos: 471,79 |
Maior taxa de mortalidade por suicídio | 80 anos ou mais: 49,69 | 60 a 69 anos: 8,35 |
O boletim relaciona a maior mortalidade masculina a fatores que podem incluir dificuldade para pedir ajuda e expressar sentimentos diante de construções culturais de masculinidade, além do acesso a meios mais letais. Entre os idosos, o documento chama atenção para questões como interrupção do trabalho, perda de autonomia, mudanças no papel de provedor e necessidade crescente de suporte social.
Por que o Rio Grande do Sul apresenta índices elevados?
Maurício Scopel Hoffmann, professor e chefe do Departamento de Neuropsiquiatria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), não há uma única explicação para a permanência dos índices elevados no Estado. Ele aponta para uma combinação de aspectos sociais e econômicos, como as desigualdades entre o interior e a Capital e a falta de oportunidades.

Hoffmann também cita o estudo nacional “Associações entre uma campanha brasileira de conscientização sobre suicídio e tendências de suicídio de 2000 a 2019: análise de ponto de junção e descontinuidade de regressão”, do qual participou e que foi publicado em 2024. A pesquisa identificou aumento de 57% nos suicídios entre 2000 e 2019, com aceleração a partir de 2015, período marcado por crise econômica.
- O achado mais importante é que o maior aumento ocorreu entre pessoas com Ensino Médio sem faculdade, grupo que talvez sinta com mais força a distância entre expectativa de ascensão social e oportunidades reais - explica Hoffmann.
A psicóloga Priscila de Melo Zubiaurre, especialista em Saúde Mental, mestre e doutoranda em Enfermagem pela UFSM, docente dos cursos de Psicologia e Enfermagem da Faculdade Integrada de Santa Maria (Fisma) e membro do grupo de pesquisa Cuidado em Saúde Mental e Formação em Saúde (Foresm), da UFSM, também chama atenção para a diversidade de fatores envolvidos.
- O suicídio é um fenômeno complexo e não pode ser explicado por uma única causa - ressalta.

Entre os aspectos que precisam ser considerados, Priscila cita condições de vida, vulnerabilidade social, dificuldades econômicas, isolamento, fragilidade das redes de apoio, exposição à violência e acesso aos serviços de saúde e saúde mental. Aspectos culturais também podem influenciar a maneira como o sofrimento é expresso e a ajuda é procurada.
Nesse processo, o estigma em torno da saúde mental ainda pode representar uma barreira. Vergonha, culpa, medo de julgamento ou a ideia de que é preciso enfrentar os problemas sozinho podem dificultar que a pessoa fale sobre o que está vivendo e procure atendimento.
- Não devemos olhar apenas para os transtornos mentais quando falamos de suicídio. É necessário compreender a pessoa dentro de seu contexto de vida, considerando suas relações, condições sociais, experiências, redes de apoio e possibilidades de acesso ao cuidado - acrescenta a psicóloga.
Quando o sofrimento deixa de ser passageiro?
Nem todo momento de tristeza, ansiedade ou irritação significa que há um problema de saúde mental. Essas reações podem aparecer diante de perdas, decepções ou dificuldades do cotidiano e diminuir ao longo dos dias ou semanas, especialmente quando a pessoa encontra apoio. Para Hoffmann, o sinal de atenção está principalmente na persistência ou intensificação desse sofrimento e no impacto que ele passa a ter sobre a vida.
- Não é apenas o número de sintomas que define a necessidade de ajuda profissional, mas o quanto eles comprometem a rotina e a qualidade de vida da pessoa - destaca o psiquiatra.
Mudanças no sono e no apetite, cansaço persistente, isolamento, sensação de vazio ou desesperança, dificuldade de concentração, irritabilidade e perda de interesse por atividades antes prazerosas estão entre os sinais que podem indicar que algo não vai bem. O aumento do consumo de álcool ou outras substâncias também merece atenção.
Priscila destaca que essas mudanças podem aparecer em diferentes áreas da vida:
- Quando esse sofrimento começa a comprometer o funcionamento da pessoa no trabalho, nos estudos, nas relações interpessoais, no autocuidado ou em atividades que antes eram prazerosas ou produtivas, é importante buscar ajuda profissional - orienta.
A procura por atendimento, porém, não precisa ocorrer somente quando a situação já se agravou. Momentos de crise, como luto, separação, perda de emprego ou uma experiência traumática, também podem justificar uma avaliação profissional.
Algumas falas e mudanças de comportamento podem indicar uma situação de maior risco. Falar sobre morrer, desistir da vida ou não encontrar motivos para continuar, despedir-se de pessoas de maneira incomum, demonstrar desesperança intensa ou se isolar repentinamente estão entre os sinais que exigem atenção.
- Qualquer menção à morte ou ao suicídio deve ser considerada com seriedade e nunca interpretada como simples tentativa de chamar atenção ou manipulação - alerta Hoffmann.
Priscila acrescenta que podem aparecer sentimentos de vazio, culpa, vergonha, derrota e não pertencimento, além de falas sobre querer desaparecer ou não estar mais presente.
- Os sinais podem variar bastante de uma pessoa para outra e não devem ser analisados de forma isolada - explica a psicóloga.
Como acolher alguém que não está bem?
Ao perceber que alguém próximo não está bem, ouvir e oferecer espaço para que a pessoa fale sobre o que está vivendo pode ser uma das primeiras formas de acolhimento. Para Priscila, é importante que a pessoa se sinta confortável para expressar o própriosofrimento.
- É importante permitir que ela fale livremente, sem interrupções, de modo a estimulá-la a aprofundar o assunto - orienta a psicóloga.
Demonstrar que a pessoa não está sozinha é importante. Outro ponto destacado é de não minimizar o que está sendo relatado, fazer julgamentos ou recorrer a respostas prontas. Esse tipo de postura pode dificultar a construção de confiança e intensificar sentimentos de vergonha, culpa e fracasso.
Outro receio comum é de que perguntar diretamente sobre pensamentos de morte ou suicídio possa incentivar esse comportamento. Priscila afirma que essa ideia é um mito e que abordar o assunto pode ajudar a compreender a gravidade do momento vivido pela pessoa.
- É necessário abordar e explorar o tema para compreender a gravidade do momento pelo qual ela está passando - destaca.
Após a escuta e o acolhimento, a orientação é buscar ajuda especializada junto com a pessoa e, se possível, acompanhá-la até o serviço. Outra possibilidade para quem precisa conversar é o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia.
- É um telefone gratuito, que funciona 24 horas, sete dias por semana, sem julgamento, sigiloso, sem pressa para todas as pessoas que precisam e querem conversar - afirma Glênio Motta, voluntário há 10 anos e porta-voz da unidade de Santa Maria.
Em Santa Maria, o CVV conta com 33 voluntários, dos quais 10 também participam de ações na comunidade. Em situações de risco imediato, a orientação é procurar atendimento médico.