Foto: Marcelo Oliveira (Arquivo/Diário)
A rede pública de saúde mental de Santa Maria realizou 32.223 atendimentos entre 23 de setembro de 2025 e 23 de setembro de 2026, considerando os registros da Policlínica de Saúde Mental, do Santa Maria Acolhe e dos quatro Centros de Atenção Psicossocial (Caps) do município. Os dados mostram a dimensão da procura por atendimento e ajudam a entender como funciona a rede de assistência no município durante o Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre a prevenção do suicídio.
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Entre os serviços, o Caps Infantil O Equilibrista registrou o maior número de atendimentos no período, com 8.410, seguido pelo Caps II Prado Veppo, com 8.034. A Policlínica de Saúde Mental contabilizou 4.528 atendimentos, enquanto o Santa Maria Acolhe registrou 4.467. Também foram registrados 3.420 atendimentos no Caps AD Cia do Recomeço I e 3.364 no Caps AD Caminhos do Sol.
Quem procurar e onde
A coordenadora da Política Municipal de Atenção Psicossocial, Lígia Zorzi, explica que os serviços têm diferentes formas de acesso. O atendimento dos Caps é feito no regime de portas abertas, através de uma portaria federal, que garante que qualquer cidadão possa procurar diretamente o serviço para receber o primeiro acolhimento, sem a necessidade de um encaminhamento médico ou agendamento prévio. Esse regime também acontece na Policlínica Santa Maria Acolhe.
A Policlínica de Saúde Mental, por outro lado, funciona por meio de regulação. Para o atendimento psicológico e psiquiátrico destinado à população em geral, é necessário procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS). A partir da consulta, o caso é encaminhado para a regulação e, quando indicado, para a Policlínica.
A diferença está também no perfil dos atendimentos. Segundo Lígia, a Policlínica recebe principalmente casos leves, enquanto os Caps atendem pessoas com quadros de maior gravidade e persistência, além de públicos com necessidades específicas.
Mais de 5 mil prontuários ativos
Os serviços de saúde mental de Santa Maria têm, ao menos, 5.164 prontuários ativos, ou seja, mais de cinco mil pessoas atendidas, segundo os dados informados pela Secretaria Municipal da Saúde. O Caps II Prado Veppo concentra 1.585 prontuários ativos, seguido pelo Caps Caminhos do Sol, com 1.480. O Santa Maria Acolhe tem 719, o Caps Cia do Recomeço, 700, e o Caps Infantil O Equilibrista, 680.

Demanda cresce e rede busca ampliar atendimento
O psicólogo e coordenador da Policlínica de Saúde Mental e do Ambulatório Transcender, Cesar Bridi, afirma que a procura por atendimento em saúde mental aumentou nos últimos anos. Segundo ele, desde 2021, a lista de espera da Policlínica recebe aproximadamente 25 a 30 novos nomes por mês.
Para Bridi, esse aumento também representa uma mudança na forma como a população busca ajuda para questões relacionadas à saúde mental, especialmente após a pandemia.
– A saúde mental de alguma maneira foi mais aceita, e bem recebida, principalmente após a pandemia, quando as pessoas vivenciaram muitas situações de depressão e ansiedade. Então, desde 2021, essa lista cresce bastante, a ponto de entrar em torno de 25 a 30 pessoas na lista por mês, o que faz com que tenhamos que pensar algumas alternativas. Obviamente, não conseguimos dar conta de todo mundo, mas acho que é importante poder frisar sobre essa busca.
Com o aumento da procura, a ampliação da rede aparece como uma das frentes de atuação da Política Municipal de Atenção Psicossocial. Entre as medidas em discussão estão o fortalecimento das equipes de saúde mental na atenção primária, a ampliação dos serviços e a transformação do atual Caps II Prado Veppo em Caps III, com funcionamento 24 horas.
Para Lígia, no entanto, ampliar a rede não significa apenas criar novos serviços especializados. A estratégia também passa por fortalecer o atendimento no território onde a pessoa vive, especialmente na atenção primária.
– Não adianta enchermos a cidade de serviços, de ambulatórios, de Caps, se não fortalecermos o território onde essas pessoas estão morando. Por isso, o nosso maior foco e maior atenção tem sido o fortalecimento da Atenção Primária em Saúde com equipes na própria Atenção Primária.
Segundo a coordenadora, a intenção é que casos considerados leves possam ser acompanhados pelas equipes de saúde mental nas próprias unidades básicas de saúde, sem a necessidade de encaminhamento imediato para um serviço especializado. A avaliação é de que, quando esses casos permanecem em filas de espera, o sofrimento pode se intensificar e chegar a um estágio mais grave.
A coordenadora afirma que o município trabalha para ampliar as equipes de saúde mental na atenção primária e que a discussão sobre a contratação de profissionais e a expansão dos serviços faz parte da agenda permanente da política de saúde mental.
Região de Santa Maria teve segunda maior taxa de notificações
Publicado em 2025, o Boletim Epidemiológico da Secretaria Estadual da Saúde, elaborado pelo Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), reúne dados sobre violência autoprovocada e suicídios no Rio Grande do Sul. Entre os números apresentados, está a taxa de notificações de lesão autoprovocada registrada em 2024 nas diferentes regiões de saúde do Estado.
Em 2024, o Estado registrou 11.409 notificações de violência por lesão autoprovocada, segundo os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). O número ficou próximo ao registrado em 2023, quando foram contabilizadas 11.291 notificações.
A 4ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS), com sede em Santa Maria, apresentou a segunda maior taxa de notificações do Estado em 2024: 179,22 casos por 100 mil habitantes. A primeira foi a 13ª CRS, de Santa Cruz do Sul, com 209,33 por 100 mil.
É importante destacar que a 4ª CRS não corresponde somente a Santa Maria. A coordenadoria reúne 33 municípios, entre eles Agudo, Cacequi, Capão do Cipó, Dilermando de Aguiar, Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Formigueiro, Itaara, Itacurubi, Ivorá, Jaguari, Jari, Júlio de Castilhos, Mata, Nova Esperança do Sul, Nova Palma, Paraíso do Sul, Pinhal Grande, Quevedos, Restinga Sêca, Santa Maria, Santiago, São Francisco de Assis, São João do Polêsine, São Martinho da Serra, São Pedro do Sul, São Sepé, São Vicente do Sul, Silveira Martins, Toropi, Tupanciretã, Unistalda e Vila Nova do Sul.
Já em relação aos óbitos, a 4ª CRS registrou 83 mortes por suicídio em 2024, com taxa de 15,81 óbitos por 100 mil habitantes. Nesse indicador, outras regiões apresentaram taxas superiores. O índice ficou abaixo do registrado em seis coordenadorias regionais: 9ª CRS, de Cruz Alta (26,40); 13ª CRS, de Santa Cruz do Sul (23,88); 17ª CRS, de Ijuí (23,69); 2ª CRS, de Frederico Westphalen (23,57); 12ª CRS, de Santo Ângelo (23,24); e 8ª CRS, de Cachoeira do Sul (21,25). A taxa média do Rio Grande do Sul foi de 14,87 óbitos por 100 mil habitantes
O boletim ressalta que o comportamento suicida não se limita ao óbito e pode envolver diferentes manifestações, como comportamento autolesivo, ideação suicida com ou sem plano e tentativa de suicídio. Por isso, a identificação do sofrimento e o acesso aos serviços de saúde são pontos importantes da rede de prevenção.
Procura por atendimento especializado
Além dos Caps e da Policlínica, o município possui o Ambulatório Transcender, vinculado à Policlínica e destinado à população LGBTQIAPN+. Segundo Cesar Bridi, esse é o serviço da estrutura da Policlínica que funciona como porta aberta: a pessoa pode entrar em contato e solicitar acolhimento.
O ambulatório possui grupos de convivência e terapêuticos, incluindo atividades para adolescentes e pessoas com 50 anos ou mais. Há também acompanhamento relacionado a crianças LGBTQIAPN+, quando identificado sofrimento psíquico que demande atendimento.
Bridi ressalta que a população LGBTQIAPN+ não é considerada um grupo com necessidade de tratamento por sua identidade. O atendimento é destinado a situações de sofrimento psíquico ou outras demandas de saúde que possam necessitar de acompanhamento. A Policlínica também possui linhas de cuidado voltadas para violência contra crianças e adolescentes e violência contra a mulher, com acessos específicos por encaminhamento.
Onde buscar ajuda em Santa Maria
Santa Maria Acolhe

- Acolhe demanda espontânea, para pessoas a partir de 12 anos sem vinculação prévia com outro serviço especializado da Rede de Atenção Psicossocial, em crise emocional aguda e com relação direta e recente com quadros de trauma e luto
- Endereço: R. Conrado Hoffmann, 277, Nossa Sra. de Lourdes
- O atendimento funciona no regime de porta aberta
- Horário de funcionamento: Segunda, terça, quinta e sexta, das 8h às 12h e das 13h às 17h. Em setembro, o local não realiza acolhimentos às quartas-feiras, devido à produção de relatórios e documentos internos
Caps II Prado Veppo

O Caps II Prado Veppo é voltado para adultos com transtornos mentais moderados, graves e persistentes.
- Endereço: Av. Fernando Ferrari, 1.684, Nossa Sra. de Lourdes
- O atendimento funciona no regime de porta aberta.
- Horário de funcionamento: funciona de segunda a sexta, das 8h às 18h
Caps Infantil O Equilibrista

- Atendimento de crianças e adolescentes com transtornos mentais graves e persistentes, dos 3 aos 18 anos.
- Endereço: R. Conrado Hoffmann, 100, Nossa Sra. de Lourdes
- O atendimento funciona no regime de porta aberta.
- Horário de funcionamento: Segunda, quarta, quinta e sexta, das 8h às 18h
Caps ad Cia do Recomeço I

- Atendimento relacionado a álcool e outras drogas
- Endereço: R. General Neto, 579, Centro
- O atendimento funciona no regime de porta aberta
- Horário de funcionamento: De segunda à sexta, das 8h às 18h
Caps ad Caminhos do Sol

- Atendimento relacionado a álcool e outras drogas.
- Endereço: R. Euclídes da Cunha, 1.695, Pres. João Goulart
- O atendimento funciona no regime de porta aberta.
- Horário de funcionamento: De segunda à sexta, das 8h às 18h
Policlínica de Saúde Mental

- Atendimento psicológico e psiquiátrico para a população em geral, principalmente casos leves.
- Endereço: Rua dos Andradas, 1.397, Centro
- Acesso por encaminhamento da Unidade Básica de Saúde e regulação.
- Horário de funcionamento: segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h
Ambulatório Transcender
- Atendimento voltado à população LGBTQIAPN+ para esclarecimentos, acompanhamento e encaminhamentos no âmbito individual, familiar, social e comunitário.
- É a linha da Policlínica que funciona como no regime de porta aberta.
Em situação de emergência ou risco imediato, a orientação é procurar um serviço de urgência e emergência ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo 192.
Também é possível buscar apoio emocional pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, com atendimento gratuito e 24 horas por dia.