“Eu tinha que proteger as crianças”, diz professora esfaqueada que defendeu alunos em ataque a escola na região

“Eu tinha que proteger as crianças”, diz professora esfaqueada que defendeu alunos em ataque a escola na região

Foto: Arquivo Pessoal

Lyza Da Cunha Ferraz Soares, 29 anos, foi agredida enquanto protegia uma turma de nove crianças durante o ataque ao Instituto Estadual de Educação Deputado Ruy Ramos, em Rosário do Sul.

Uma semana após o ataque que resultou em quatro pessoas feridas no Instituto Estadual de Educação Ruy Ramos, em Rosário do Sul, a professora Lyza Da Cunha Ferraz Soares, 29 anos, ainda se recupera dos ferimentos sofridos dentro de uma sala da Educação Infantil. Na manhã de 6 de agosto, ela estava com uma turma de nove crianças, em média de 4 anos, quando foi atacada por um adolescente armado com faca e facão.

Com pontos na cabeça, em tratamento psicológico e afastada temporariamente das atividades, Lyza contou com exclusividade ao Diário os minutos vividos naquela manhã. Ao relembrar o que aconteceu, descreve de forma direta a sequência das agressões e a preocupação que teve com os alunos. Em uma das frases, resume o que pensou enquanto tentava permanecer entre o agressor e as crianças:

— Naquele momento, pensava em me proteger e não recuar, não sair dali, porque eu tinha que proteger as crianças. Eu fui o escudo. Em nenhum momento passou pela minha cabeça fugir dali. Eu fiquei até que ele saísse.


O escudo
Aquela quinta-feira havia começado como qualquer outro dia de aula. As crianças chegaram por volta das 7h40min e, cerca de 10 minutos depois, já estavam em sala. Por volta das 8h, Lyza saiu por alguns instantes para levar letras de EVA, utilizadas nas atividades escolares, a outra profissional responsável pela turma ao lado.

Quando retornou à própria sala, encontrou o adolescente próximo à sua mesa. Lyza relata nunca ter tido contato com ele. Ao perceber um desconhecido no espaço onde estavam as nove crianças, dirigiu-se a ele e pediu que deixasse a sala. Não houve resposta

Conforme o relato da professora, ele atravessou a sala em sua direção e começou a agredi-la com socos e tapas. Segundo ela, tudo aconteceu tão rápido que, inicialmente, sequer percebeu que ele estava armado.

Enquanto tentava se proteger, a professora recuou pela sala, afastando-se das crianças e colocando os braços sobre a cabeça. O adolescente continuou as agressões e, em determinado momento, segurou Lyza pelos cabelos.

— Ele pegou pelo meu cabelo e foi nesse momento que ele me cortou na região da cabeça. Não foi só um corte. Ele cravou várias vezes a faca na minha cabeça, porque ficaram as cicatrizes, as marcas — relata.

Quando percebeu ser atingida na região do pescoço, imobilizada, Lyza gritou por socorro. Quem ouviu foi a professora que estava na sala ao lado. A mulher correu até o local e conseguiu afastar o adolescente, interrompendo as agressões.

Ao contar quem apareceu para ajudá-la naquele momento, Lyza não hesita em dividir o reconhecimento que receberia nos dias seguintes:

— Ela foi uma heroína.

Após ser afastado, o adolescente saiu correndo da sala. As duas professoras fecharam a porta e permaneceram trancadas com as nove crianças enquanto aguardavam a chegada da Brigada Militar.

Durante toda a agressão, as crianças haviam permanecido em silêncio, relata Lyza. A professora conta que elas ficaram quietas, sem tentar sair da sala. Ela própria ainda não havia percebido a dimensão dos ferimentos que havia sofrido. Lyza ainda conta que, só depois que adolescente saiu do local, as crianças entraram em desespero. Mesmo ferida, a professora tentou acalmá-las.

— Eu pedi que elas se acalmassem, que eu estava bem, que eu tinha sido atingida, mas que estava bem, que ia ficar tudo bem.


Professora havia chegado à escola há seis meses

Foto: Reprodução

A sala onde tudo aconteceu fazia parte da rotina de Lyza havia pouco tempo. Professora da rede municipal de Rosário do Sul, ela começou a trabalhar no Instituto Estadual de Educação Ruy Ramos seis meses antes do ataque.

Lyza é licenciada em Geografia, também tem formação no magistério e atualmente cursa uma segunda licenciatura em Pedagogia. Na escola, trabalha com o Pré I da Educação Infantil. Embora o instituto pertença à rede estadual, as turmas de Educação Infantil que funcionam no espaço são do município, que utiliza salas cedidas pela instituição.

Foi também por trabalhar com os alunos mais novos que Lyza não conhecia o adolescente. O Instituto Ruy Ramos reúne diferentes níveis de ensino e, conforme a professora, ela nunca havia visto ou mantido contato com ele antes daquela manhã.

Depois que o adolescente deixou a sala, Lyza não viu o restante da ação. Conforme a apuração da reportagem, o ataque teria continuado na sala dos professores. A turma fica em uma área mais afastada de outros espaços da escola.


“Hoje eu me considero um milagre”

Uma semana após o ataque, Lyza segue em recuperação, com curativos e acompanhamento psicológico, e afirma encontrar na fé força para superar o trauma e retornar à sala de aula.Foto: Arquivo Pessoal

Após sair da escola, Lyza recebeu atendimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e foi encaminhada ao hospital. Os ferimentos provocados pela faca exigiram pontos na região da cabeça.

Uma semana depois, ela permanece em repouso, faz curativos e está recebendo tratamento psicológico. Também terá acompanhamento com neurologista. O atestado médico prevê dois meses de afastamento das atividades profissionais. A Secretaria de Educação de Rosário do Sul presta auxílio no processo de recuperação de Lyza.

Se a firmeza marca a maneira como reconstrói os minutos do ataque, é na fé que Lyza diz encontrar força para enfrentar o que veio depois. Ao falar sobre a recuperação, lembra principalmente do ferimento próximo ao pescoço e do quanto, na avaliação dela, o desfecho poderia ter sido diferente.

— Hoje eu me considero um milagre. Além dos golpes que levei na cabeça, que foi mais profundo, ele tentou me atingir na região do pescoço. Passou muito perto de uma região que poderia ter sido fatal — conta.

Para a professora, a fé também está relacionada à proteção das crianças e à chegada da outra professora, no momento em que pediu ajuda.

— A minha força vem de Jesus. É ele que tem me dado força, me dado ânimo, me fortalecido espiritualmente, emocionalmente e fisicamente. Graças a Deus, estou me recuperando bem.

O afastamento não significa, porém, uma despedida da sala de aula. Lyza pretende retornar ao trabalho depois do período de recuperação.

Depois que eu me sentir bem, pretendo retornar às minhas atividades.

As crianças que presenciaram as agressões também recebem acompanhamento. Conforme Lyza, alunos e familiares passam por reuniões e ações de acolhimento antes da normalização da rotina escolar, que deve ser retomada nos próximos dias.


Reconhecimento nas redes sociais

Nos dias seguintes ao ataque, a atitude de Lyza também repercutiu entre a comunidade de Rosário do Sul. Nas redes sociais, mensagens de apoio e agradecimento passaram a ser compartilhadas por familiares, colegas e pais de alunos.

Em uma das publicações que repercutiram, a mãe de um aluno agradeceu à professora pela atitude durante o ataque. No texto, Lyza é descrita como alguém que colocou a própria segurança em risco para proteger os alunos.

"Você não foi apenas uma educadora; você foi o escudo, o porto seguro e o milagre na vida de tantas crianças e de suas famílias", diz um trecho da homenagem.

A publicação também destaca a reação da professora diante do perigo e afirma que a coragem demonstrada naquela manhã permanecerá na memória da comunidade. Ao final, Lyza é chamada de “a maior heroína de nossas vidas”, em uma manifestação de “admiração, respeito e gratidão”.

Lyza conta que, inicialmente, não tinha dimensão da repercussão. Foi somente no dia seguinte que começou a perceber a quantidade de mensagens e homenagens que estavam sendo publicadas.

— Fiquei muito agradecida e, ao mesmo tempo, muito feliz pelo reconhecimento, pelo carinho que recebi de inúmeras pessoas. Isso deu uma força para mim — conclui.


Confira a nota da Prefeitura Municipal de Rosário do Sul na íntegra:

NOTA OFICIAL

A Prefeitura de Rosário do Sul informa que, na manhã desta quinta-feira (6), foi registrada uma ocorrência na Escola Estadual Deputado Ruy Ramos.

A situação foi prontamente controlada pelas forças de segurança, e todos os alunos foram acolhidos pela equipe da escola e pelos profissionais da rede de apoio. Conforme as informações disponíveis até o momento, nenhum estudante ficou ferido.

A professora que sofreu ferimentos integra o quadro de docentes da rede municipal de ensino; já as duas professoras que foram agredidas, integram a rede estadual. Elas receberam atendimento imediato, contando também com o acompanhamento da Coordenadoria Regional de Educação, da Secretaria Municipal de Educação, da Secretaria Municipal de Saúde e da Secretaria Municipal de Assistência Social.

Em razão da ocorrência, os alunos foram liberados das atividades escolares nesta data.

A Prefeitura de Rosário do Sul segue prestando todo o suporte necessário à professora, aos estudantes, às famílias e à comunidade escolar, atuando de forma integrada com os órgãos competentes.

Neste momento, reforçamos o pedido para que a população busque informações apenas pelos canais oficiais, evitando a divulgação de boatos ou informações não confirmadas, preservando o respeito às vítimas e à comunidade escolar.

A Administração Municipal permanece acompanhando o caso e colaborando com as autoridades responsáveis pelas providências cabíveis.


Confira a nota da Seduc na Íntegra:

​A Secretaria Estadual de Educação (Seduc) confirma que foi registrada ocorrência na Escola Estadual Ruy Ramos, de Rosário do Sul, na manhã desta quinta-feira (6/8). Três pessoas tiveram ferimentos leves e foram prontamente atendidas pelos serviços de saúde. As forças de segurança atenderam rapidamente a ocorrência, e um estudante foi apreendido.
​A Seduc, por meio da 19° Coordenadoria Regional da Educação, presta todo apoio necessário à comunidade escolar presencialmente desde o ocorrido. Uma equipe do Núcleo de Cuidado e Bem-Estar da Seduc está em contato com a instituição de ensino para auxílio nas ações de acolhimento e suporte.​


Relembre o caso
O ataque ocorreu na manhã de quinta-feira, 6 de agosto. Conforme a Polícia Civil, um adolescente de 15 anos, aluno do 8º ano do Instituto Estadual de Educação Ruy Ramos, entrou na instituição com uma faca e um facão.

Quatro pessoas ficaram feridas durante a ação. Além de Lyza, uma professora foi atingida posteriormente com a lateral de um facão e outra profissional ficou ferida por estilhaços de vidro após janelas serem quebradas. Um aluno também se machucou enquanto tentava fugir. Os ferimentos não foram considerados graves.

O adolescente foi apreendido pela Brigada Militar ainda dentro da escola. No dia seguinte ao ataque, a Justiça determinou a internação provisória pelo prazo máximo de 45 dias e o encaminhamento ao Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) de Santa Maria.

A decisão atendeu a um pedido da autoridade policial, com representação do Ministério Público. O caso é investigado como ato infracional análogo aos crimes de tentativa de homicídio doloso, lesão corporal e dano.

Uma semana após o ataque, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) também promove ações de prevenção à violência em Rosário do Sul. Nesta quinta (13) e sexta-feira (14), o Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (NUPVE) realiza, no Fórum do município, palestras voltadas à identificação de sinais de risco e à prevenção de episódios de violência. A programação contempla a comunidade escolar, familiares e responsáveis, além de professores, diretores e outros profissionais da educação.

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