Centro de Referência será inaugurado nesta quarta e poderá atender até 80 pessoas em situação de rua por dia em Santa Maria

Centro de Referência será inaugurado nesta quarta e poderá atender até 80 pessoas em situação de rua por dia em Santa Maria

Foto: João Vilnei (PMSM/Divulgação)

O Centro POP Maria Conrado fica na Rua Silva Jardim, 1.660, entre a Rua Floriano Peixoto e a Avenida Rio Branco, no imóvel onde funcionava a Secretaria de Esporte e Lazer.

Um banho quente, a possibilidade de lavar as próprias roupas, ter um endereço de referência e, principalmente, encontrar acompanhamento para tentar reconstruir vínculos e buscar caminhos para sair das ruas. É com essa proposta que Santa Maria inaugura, nesta quarta-feira (19), o Centro de Referência Especializado para a População em Situação de Rua, conhecido popularmente como Centro POP, um serviço aguardado pela rede de assistência social do município.

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Batizado de Maria Conrado, o novo espaço terá capacidade para atender até 80 pessoas por dia e funcionará na Rua Silva Jardim, 1.660, no Centro. A inauguração está marcada para as 17h, e os primeiros atendimentos começam na quinta-feira (20)

O novo serviço passa a integrar a rede de assistência destinada a essa população no município, mas terá uma função diferente das casas de passagem. Não haverá pernoite no Centro POP. O atendimento será realizado durante o dia, de segunda a sexta-feira, das 8h ao meio-dia e das 13h às 17h. Pessoas que utilizam as casas de passagem também poderão acessar os serviços oferecidos no local

A estrutura conta com banheiros para higiene pessoal, lavanderia com máquinas de lavar e secar roupas, espaço pet e ambientes para acolhimento e atendimentos individuais e em grupo. Logo na recepção, haverá ainda um espaço com sofá e televisão. A intenção é que a estrutura física seja o primeiro passo para um acompanhamento mais amplo, desenvolvido conforme as necessidades de cada pessoa.

O atendimento diário será feito por uma equipe multidisciplinar formada por sete profissionais, entre psicólogos, assistente social, educador social, técnicos do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), recepcionista, motorista e auxiliar de serviços gerais.

Segundo o secretário de Desenvolvimento Social, João Chaves, o trabalho começa pela construção de vínculos entre os usuários e os profissionais. A mesma equipe responsável pela abordagem social estará inserida no Centro POP e, em muitos casos, já conhece as pessoas atendidas, suas histórias e até seus familiares. A partir dessa aproximação, poderão ser trabalhadas questões relacionadas à higiene, autoestima, documentação, saúde, relações familiares e empregabilidade.

— Todo esse trabalho de resgate da autoestima e da história de vida é feito dentro desse serviço. Isso, às vezes, leva um tempo, mas nós temos experiências muito gratificantes aqui em Santa Maria e sabemos que, dentro desse serviço, teremos mais um espaço para esse olhar. Porque simplesmente passar pelas pessoas que estão na rua não é suficiente. Só dar uma marmita, dar um cobertor a elas na rua também não é a solução. De repente, podemos acabar prolongando a permanência delas nas ruas. O Centro POP vai permitir que essa pessoa, além daquilo que recebe na rua, consiga ser acolhida, tenha um olhar diferente, humanizado, e possa sair da condição em que está — disse o secretário ao vivo em entrevista para o programa Bom Dia, Cidade, da Rádio CDN 93.5FM.

Do documento ao vínculo com a família

Uma das funções do Centro POP será servir como endereço de referência para pessoas em situação de rua que não possuem residência fixa. Na prática, o endereço poderá ser utilizado em documentações e encaminhamentos que exigem uma referência.

Quando houver necessidade de atendimento de saúde, os usuários poderão ser encaminhados à rede municipal. Segundo Chaves, o Centro POP também terá uma relação próxima com o Consultório na Rua, serviço voltado ao atendimento de saúde da população em situação de rua.

Em outros casos, o trabalho poderá envolver a tentativa de restabelecer contato com familiares, inclusive daqueles que são de outras cidades. Também estão sendo construídas parcerias com universidades, faculdades e outras instituições para a realização de atividades, de acordo com o secretário.

O espaço não oferecerá almoço. Os participantes de atividades em grupo terão lanche durante os turnos, enquanto as pessoas em situação de rua referenciadas pelos serviços são encaminhadas ao Restaurante Popular, onde têm gratuidade na refeição.

Quantas pessoas vivem em situação de rua em Santa Maria?

Segundo João Chaves, não há um número exato de pessoas em situação de rua atualmente em Santa Maria. De acordo com ele, o Cadastro Único registra mais de 500 pessoas nessa condição, mas o dado não representa necessariamente a realidade das ruas. Isso porque, segundo ele, essa população circula entre cidades e Estados e pode manter o cadastro no município mesmo após deixar Santa Maria. Em junho deste ano, a prefeitura chegou a informar que 548 pessoas em situação de rua cadastradas no CadÚnico, mas também ponutava que o indicador não correspondia necessariamente ao número de pessoas que viviam nas ruas naquele momento.

Os números registrados ou estimados pelo município variaram nos últimos anos. Em 2023, a Secretaria de Desenvolvimento Social registrou 250 pessoas em situação de rua na cidade. No final de 2024, o número chegou a 391. Em setembro de 2025, por sua vez, a prefeitura estimava entre 140 e 150 pessoas nessa condição. 

Atualmente, Chaves estima que o número de pessoas em situação de rua em Santa Maria seja menos da metade das mais de 500 que constam no Cadastro Único.

— Não temos um número preciso, mas com certeza não é esse número de 500. Acredito que hoje não chega a 200 pessoas em situação de rua aqui no município de Santa Maria, pelo que vemos — afirma o secretário.

A maior concentração, segundo ele, está justamente na região central, o que pesou na localização escolhida para o Centro POP. A abordagem social também encontra pessoas em situação de rua em pontos mais afastados, como Camobi, Tancredo Neves, Feijó e a região norte, mas em menor quantidade.

Além do Centro POP, Santa Maria conta atualmente com 70 vagas em casas de passagem, e outras 10 estão sendo abertas, conforme o secretário. Diferentemente do novo serviço, essas estruturas permitem o pernoite.

Estrutura terá monitoramento 24 horas

O Centro POP funcionará onde anteriormente estava instalada a Secretaria de Esporte e Lazer. Antes disso, o imóvel já havia abrigado o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), período em que, conforme Chaves, eram desenvolvidas no endereço algumas ações com a população em situação de rua, inclusive a oferta de banho. Agora, o atendimento retorna ao local de maneira ampliada e estruturada como Centro POP.

O secretário também afirmou que moradores do entorno têm procurado o município em busca de informações sobre o funcionamento. O local terá horários e regras definidos e monitoramento 24 horas pelas câmeras do Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (Ciosp), medida que, segundo Chaves, busca oferecer segurança tanto aos trabalhadores quanto às pessoas atendidas e ao entorno.

A implementação e operacionalização do serviço contam com R$ 300 mil provenientes de emenda parlamentar. Na entrevista, Chaves estimou ainda em aproximadamente R$ 15 mil mensais o custo para manter o Centro POP em funcionamento.

Homenagem a quem defendia a criação do serviço

O nome Maria Conrado presta uma homenagem póstuma à psicóloga e servidora municipal Maria Ramires Conrado (1979-2023), que dedicou a trajetória profissional à assistência social, à defesa dos direitos humanos e ao atendimento de pessoas em situação de vulnerabilidade. Formada pela Universidade Franciscana (UFN), com especializações nas áreas clínica infantil e de estudos de gênero, atuou no CRAS Oeste, nas Aldeias SOS e nas prefeituras de Porto Lucena e Santa Maria.

Em Santa Maria, a partir de 2018, Maria integrou a equipe do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), onde trabalhou diretamente no atendimento a pessoas e famílias em situação de violação de direitos. Também esteve entre as principais defensoras da implantação de um Centro POP no município e participou ativamente da organização de eventos voltados à pauta na Câmara de Vereadores.

Na entrevista, João Chaves lembrou da convivência com a servidora e da influência que ela teve na própria forma como passou a trabalhar com a população em situação de rua.

— Ela teve uma passagem muito curta aqui, mas deixou um legado de amor e cuidado com as pessoas em situação de rua como nunca. Ela me ensinou a trabalhar com as pessoas em situação de rua — relembrou.

Percepção do comércio

Foto: Vinicius Becker (Diário)


A presença de pessoas em situação de rua também é acompanhada pelo comércio de Santa Maria. Segundo o presidente do Sindicato dos Lojistas (Sindilojas), Ademir José da Costa, a percepção do setor é de aumento dessa população, inclusive fora da região central. Ele relata que o assunto foi discutido nesta semana dentro da entidade, após relatos de pessoas que passaram a ocupar espaços próximos a prédios menos habitados ou em regiões mais afastadas, inclusive com a instalação de barracas e lonas.

No centro, porém, Costa afirma que não percebe uma mudança significativa no número de pessoas em situação de rua. Por outro lado, avalia que houve maior atuação do poder público diante das situações comunicadas pelo comércio, especialmente quando envolvem pessoas sob efeito de álcool ou drogas e episódios de comportamento violento.

— O que a gente percebe é que houve um apoio maior da prefeitura. O novo secretário tem trabalhado bem em cima disso, tem acolhido as nossas reclamações quando a gente manda alguma informação, principalmente sobre locais onde tem pessoas que estão bêbadas ou alcoolizadas, drogadas e que são, de certa forma, um pouco violentas. A gente tem percebido a atuação da prefeitura — afirma.

Sobre a implantação do Centro POP, Costa afirma enxergar a iniciativa de forma positiva, embora defenda também o aproveitamento e o apoio às estruturas de acolhimento que já existem.

— Sobre o Centro POP, eu vejo com bons olhos. Cada coisa que surge como solução, a gente tem que apoiar. Apesar disso, vejo vários centros de reabilitação e locais de acolhimento que já estão preparados para atender essas pessoas e que poderiam ser utilizados. Poderíamos apoiar essas casas de acolhimento que já existem, por meio de convênios com a prefeitura ou o Estado — sugere.

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