Foto: Vinicius Becker (Diário)
O granizo que provocou estragos em Santiago e em outros municípios da Região Central no último fim de semana está relacionado a condições atmosféricas favoráveis à formação de tempestades intensas. Segundo o meteorologista Murilo Lopes, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o Rio Grande do Sul está em uma das regiões com maior ocorrência de tempestades de granizo do planeta.
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Em entrevista ao Bom Dia, Cidade, da Rádio CDN 93.5 FM, o especialista explicou como se formam as pedras de gelo, por que algumas tempestades produzem granizo de grandes dimensões e quais fatores contribuíram para os registros recentes em Santiago e Alegrete.
Lopes também abordou os efeitos do El Niño, que já estão sendo sentidos no Estado, e as perspectivas meteorológicas para outubro. Conforme o meteorologista, o mês deve registrar precipitações bastante acima da média histórica, com possibilidade de temporais e novos episódios de granizo.
Por que o granizo atingiu Santiago com tanta intensidade?

O meteorologista explica que a Região Sul do Brasil e o norte da Argentina apresentam condições atmosféricas que favorecem a formação de tempestades intensas. Entre os fatores estão o contraste entre massas de ar e a mudança na intensidade dos ventos conforme a altitude aumenta.
Essas condições podem favorecer a formação de tempestades com rotação, chamadas de supercélulas. Embora também possam produzir tornados, essas tempestades são capazes de provocar granizo de grandes dimensões.
Nas supercélulas, correntes de ar quente alimentam a tempestade e ajudam a manter as pedras de gelo suspensas dentro da nuvem por mais tempo. Nesse processo, elas recebem umidade e continuam crescendo.
– Quanto mais intensa a corrente de ar quente que alimenta a nuvem de tempestades, mais capaz ela vai ser de segurar pedras de granizo de grande tamanho – explica Lopes.
O meteorologista destaca que a formação do granizo ocorre dentro das nuvens, onde as temperaturas podem ficar abaixo de zero. A diferença entre uma ocorrência comum e um episódio de granizo de grandes dimensões está, entre outros fatores, na intensidade das correntes de ar e no tempo que as partículas de gelo permanecem na chamada zona de crescimento do granizo.
Quanto mais tempo permanecem nessa região, maior pode ser o tamanho das pedras.
Granizo de até 10 centímetros foi registrado em Alegrete

Segundo Lopes, o episódio do último fim de semana apresentou condições favoráveis tanto à formação de pedras de granizo de grandes dimensões quanto à ocorrência de grande quantidade de gelo.
Em Santiago, foram registradas pedras entre 4 e 8 centímetros, acompanhadas de acúmulo de granizo nas ruas. Já em Alegrete, a mesma nuvem de tempestade que provocou estragos em Santiago produziu pedras que podem ter chegado a 10 centímetros, embora em menor quantidade.
– Temos essas duas vias possíveis: tanto granizo de grande quantidade quanto granizo de grande tamanho conjuntamente – afirma.
O meteorologista ressalta que não se trata de fenômenos inéditos. O que chamou a atenção foi a combinação das condições atmosféricas que permitiram a ocorrência de pedras grandes e de acúmulo expressivo de gelo.
Santa Maria também está sujeita a episódios de granizo intenso
Apesar das características geográficas de Santa Maria, como os morros que rodeiam a cidade, a região também está sujeita à formação de tempestades capazes de provocar granizo de grandes dimensões.
Lopes lembra que o município já registrou episódios significativos, como em 1998. No ano passado, durante o inverno, houve três ocorrências de granizo na mesma madrugada.
De acordo com o meteorologista, a presença dos morros não tem influência relevante na formação das tempestades ou na ocorrência das quedas de granizo.
O que determina quais municípios serão atingidos é, principalmente, a posição dos sistemas meteorológicos e o caminho percorrido pelas tempestades.
No episódio do último fim de semana, o sistema atuou mais a oeste do Rio Grande do Sul, atingindo municípios como Santiago, Alegrete, Dilermando de Aguiar e São Francisco de Assis.
Canhões antigranizo não têm eficácia comprovada

Durante a entrevista, Lopes também abordou os investimentos que municípios podem fazer para tentar reduzir os danos provocados pelo granizo.
Segundo ele, equipamentos como canhões sonoros antigranizo não apresentam comprovação científica de eficácia na dissipação das pedras de gelo.
O meteorologista afirma que esse tipo de tecnologia já foi testado e descartado em diferentes momentos ao longo da história, por não demonstrar resultados.
– Não existe comprovação científica alguma de que o granizo possa ser dissipado, por exemplo, com canhões sonoros que têm sido instalados em muitos municípios – afirma.
Como alternativa, Lopes aponta o investimento em radares meteorológicos, que permitem acompanhar o desenvolvimento das tempestades e emitir avisos para reduzir os riscos à população.
Para áreas agrícolas, especialmente regiões de pomares, ele menciona a instalação de telas e outras estruturas de proteção.
O especialista também observa que a ausência de granizo em municípios onde existem canhões não comprova a eficácia dos equipamentos, já que a trajetória dos sistemas meteorológicos pode fazer com que determinadas localidades não sejam atingidas.

El Niño deve contribuir para um outubro mais chuvoso
O El Niño já está produzindo efeitos no Rio Grande do Sul, segundo Lopes. O meteorologista afirma que as consequências do fenômeno são percebidas desde o final do inverno, com condições mais frequentes para a ocorrência de tempestades.
Para outubro, a expectativa é de continuidade da instabilidade, com maior aporte de umidade proveniente da região amazônica e presença de sistemas meteorológicos mais intensos.
O pico de aquecimento das águas do Oceano Pacífico deve ocorrer no final da primavera. No entanto, os impactos mais expressivos sobre temporais e chuva intensa no Rio Grande do Sul devem ser sentidos em outubro e novembro.
A perspectiva também é de precipitações acima da média durante praticamente todo o verão e até o outono de 2027.
Historicamente, outubro registra cerca de 150 milímetros de chuva na região. Para este ano, a estimativa apresentada pelo meteorologista é de volumes entre 100 e 200 milímetros acima da média histórica.
Chuva pode superar 150 milímetros entre segunda e terça-feira
Além da previsão para outubro, Lopes explicou as condições meteorológicas que provocaram os volumes expressivos de chuva registrados na Região Central nos últimos dias.
Segundo ele, o sistema que trouxe as tempestades entre sábado e domingo era uma frente quente, caracterizada pelo avanço de uma massa de ar mais quente e úmida sobre uma região com ar relativamente mais fresco.
O sistema se deslocou para o norte e permaneceu sobre o Rio Grande do Sul. Entre segunda e terça-feira, a aproximação de uma área de baixa pressão sobre o norte da Argentina deve provocar uma nova intensificação da instabilidade.
A chuva tende a perder intensidade e pode parar ao longo do final da tarde e da noite de segunda-feira. No entanto, a aproximação do sistema de baixa pressão deve favorecer o retorno da chuva mais intensa na terça-feira, com possibilidade de novos temporais de granizo.
Conforme a estimativa apresentada por Lopes na entrevista, os acumulados entre segunda e terça-feira podem superar 100 a 150 milímetros, especialmente na Região Central, na Campanha e em parte do norte do Estado.
O meteorologista também alertou para o volume já registrado em Santa Maria, que ultrapassava 120 milímetros desde o domingo, com previsão de pelo menos mais 100 milímetros.
– É um cenário que já traz bastante alerta, porque já choveu bastante – destaca.