Caso Gabriel: "Eles não mataram o Gabriel e dizem isso há quatro anos", afirma advogado de defesa de PMs acusados

Autor: Alexandre La Bella e Vitória Parise

Caso Gabriel:

Foto: Vitória Parise (Diário)

A sustentação da defesa dos três policiais militares acusados pela morte de Gabriel Marques Cavalheiro começou na tarde desta sexta-feira (3), no quinto dia do Tribunal do Júri realizado no Foro da Comarca de São Gabriel. O primeiro a se manifestar foi o advogado Maurício Adami Custódio, que representa o sargento Arleu Júnior Cardoso Jacobsen. Durante a apresentação, ele sustentou que a investigação foi conduzida de forma precipitada, afirmou que outras linhas investigativas não foram aprofundadas e defendeu que não há provas de que os réus tenham participado da morte ou da ocultação do corpo do jovem. Além de Jacobsen, também respondem ao processo os soldados Raul Veras Pedroso e Cléber Renato Ramos de Lima, denunciados pela morte de Gabriel, então com 18 anos, em agosto de 2022.

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Defesa questiona investigação e sustenta ausência de provas
Logo no início da sustentação, Custódio afirmou que a análise do processo deve considerar aquilo que, segundo ele, permaneceu sem resposta durante a investigação.

— A prova inicia naquilo que varia, naquilo que modifica, naquilo que não é alcançado, naquilo que não é dito — afirmou.

Ao rebater a tese apresentada pelo Ministério Público, o advogado sustentou que os elementos reunidos ao longo da investigação não demonstram que os policiais tenham cometido o homicídio e defendeu que outras linhas investigativas deixaram de ser aprofundadas. Entre elas, citou a possibilidade de envolvimento de um homem que supostamente trabalhava na propriedade rural da região de Lava Pé, onde o corpo de Gabriel foi encontrado, além da necessidade de aprofundamento de diligências relacionadas aos dados de localização.

Durante a exposição, o advogado argumentou que, embora reconheça o sofrimento provocado pelo caso, o julgamento deve ser fundamentado nas provas produzidas ao longo do processo, e não no impacto emocional da morte de Gabriel.

— O crime não é a dor da família enlutada, como também não é a absolvição dos réus pela família que não tem mais esperança. Todos nós sofremos há quatro anos. (...) Mas o crime é uma conduta humana. O crime é matar alguém. O crime é saber se tem prova do que está sendo dito — disse.

Ele também argumentou que os três policiais mantiveram a mesma versão dos fatos desde o início da investigação.

— Nós temos um vídeo de uma abordagem. Nós temos fotos de uma abordagem, nós temos depoimentos que foram produzidos, e esses depoimentos afastaram essa ordem cronológica. Eles, desde o começo, há quatro anos, contam a mesma versão. Há quatro anos falam a mesma coisa — completou.


Defesa sustenta que laudo pericial contraria acusação

Na sequência, o advogado sustentou que, na interpretação da defesa, a ausência de livores (manchas arroxeadas ou avermelhadas que surgem na pele após a morte) cadavéricos indicaria que Gabriel não permaneceu por um longo período no local onde o corpo foi encontrado.

— O Gabriel não tinha livores. Porque, se ele tivesse permanecido por um período de seis horas, 12 horas depositado no chão, a pessoa que o matou deixaria o rastro do corpo, porque o corpo fala. E o espasmo cadavérico, que o perito disse, conservou o último momento do Gabriel — disse.

Com base nessa interpretação, Custódio afirmou que as provas produzidas seriam incompatíveis com a tese apresentada pelo Ministério Público.

— As provas são totalmente contrárias ao que a acusação diz, porque nós temos um vídeo em que o Gabriel vai caminhando até a viatura.


Vídeos, bastões e absolvição na Justiça Militar
Durante a sustentação, Custódio exibiu imagens dos policiais chegando ao batalhão após a ocorrência. Segundo ele, os registros mostrariam que os policiais não estavam portando os bastões apresentados pela acusação como instrumentos das agressões.

O advogado também relembrou que os réus foram absolvidos, na Justiça Militar, da acusação de ocultação de cadáver e afirmou que o julgamento em curso trata exclusivamente da imputação de homicídio.

— Estamos defendendo pessoas que podem ficar 30 anos presas por um homicídio.  


Contradições em depoimentos
Outro eixo da sustentação concentrou-se nos depoimentos prestados na investigação e no Tribunal do Júri.

O advogado questionou a consistência do relato da mulher que acionou a Brigada Militar na noite da abordagem e afirmou que o depoimento sofreu alterações ao longo do processo.

— Quando ela tem condições de dizer o que viu espontaneamente, ela não responde influenciada.

Custódio também mencionou diferenças entre versões atribuídas à adolescente que gravou parte da abordagem. Segundo ele, inicialmente ela teria afirmado que os três policiais agrediram Gabriel na cabeça e, posteriormente, declarou não se recordar desse detalhe.

— Dentro desses elementos, onde está a paulada que tirou a vida de Gabriel?


Questionamento da perícia e localização da viatura

Na parte final da sustentação, o advogado voltou a defender que a investigação deixou de aprofundar diligências consideradas importantes pela defesa.

Segundo Custódio, há anos os advogados solicitam a quebra de dados do Google, por entenderem que essas informações poderiam contribuir para esclarecer o caso. Ele também afirmou que a defesa apoiou a realização da reconstituição simulada dos fatos e disse que o último registro de geolocalização da viatura indicaria a chamada "casa verde" como ponto final do percurso, argumentando que o veículo não teria descido até a barragem onde o corpo de Gabriel foi localizado.

Durante essa etapa da sustentação, a mãe de Gabriel Marques Cavalheiro deixou o plenário por volta das 15h47min.



Relembre o caso

Gabriel havia se mudado de Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre, para São Gabriel com o objetivo de prestar o serviço militar obrigatório no Exército. Na noite do dia 12 de agosto de 2022, enquanto estava hospedado na residência de um tio no Bairro Divina Providência, o jovem saiu do imóvel para tomar uma cerveja.​

Uma moradora das proximidades acionou a Brigada Militar via telefone relatando que um homem desconhecido tentava forçar o portão de acesso à sua propriedade. Conforme o registro da denúncia e imagens gravadas por testemunhas na localidade, os três policiais atenderam a ocorrência, imobilizaram Gabriel e o colocaram no compartimento de transporte da viatura. Relatos coletados durante o inquérito apontaram o uso de golpes de cassetete. Essa foi a última ocasião em que o jovem foi visto com vida.

O corpo de Gabriel foi localizado uma semana depois, em 19 de agosto de 2022, submerso em um açude na região conhecida como Lava Pé, na zona rural do município.

No banco dos réus, estão o sargento Arleu Júnior Cardoso Jacobsen, de 46 anos, e os soldados Raul Veras Pedroso, de 32 anos, e Cléber Renato Ramos de Lima, de 44 anos. Eles respondem por homicídio qualificado por motivo fútil e por recurso que dificultou a defesa da vítima. Os três estão presos preventivamente desde agosto de 2022, no Presídio Policial Militar de Porto Alegre.

O Ministério Público afirma que vai ao júri com pedido de condenação e responsabilização dos acusados. A assistência de acusação, que representa a família de Gabriel, sustenta que o julgamento é um momento decisivo para o reconhecimento da responsabilidade criminal.

Já as defesas dos réus afirmam a inocência dos policiais e defendem que o julgamento seja baseado exclusivamente nas provas produzidas no processo.


Acompanhe o julgamento em tempo real

O Diário acompanha, em tempo real, o júri dos três policiais militares acusados pela morte de Gabriel Marques Cavalheiro. O julgamento teve início na segunda-feira (29) e tem previsão de durar quatro diasClique aqui para conferir as atualizações ao longo da cobertura.



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