Caso Gabriel: “nos chamavam de assassinos”, policial diz em tribunal do júri que o caso afetou até quem não era investigado

Autor: Colaboração de Vitória Parise

Caso Gabriel: “nos chamavam de assassinos”, policial diz em tribunal do júri que o caso afetou até quem não era investigado

Foto: Vitória Parise (Diário)

O quarto dia do júri popular do caso Gabriel Marques Cavalheiro, nesta quinta-feira (2), foi marcado pelos depoimentos das últimas duas testemunhas de defesa dos réus Cléber Renato Ramos de Lima e Raul Veras Pedroso. Após uma nova visita dos jurados à localidade de Lava Pé, em São Gabriel, o policial militar Jorge Nicael Oliveira Lopes, que atuava no setor de inteligência da Brigada Militar na época do crime, e Raquel de Lima Pereira Souz, vizinha de Pedroso, reforçaram a tese apresentada pelos advogados da defesa ao longo do julgamento

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Os relatos abordaram desde os impactos do caso dentro da corporação até aspectos da personalidade e da trajetória de um dos réus


Policial relata impactos psicológicos e diz que brigadianos foram "julgados" antes da investigação

O primeiro depoimento da manhã foi do soldado Lopes, que integrava o setor de inteligência da Brigada Militar, conhecido como "P2", na época do desaparecimento de Gabriel. Ele foi responsável por gravar, com um telefone celular, o depoimento da mulher que acionou a Brigada Militar na noite em que o jovem desapareceu.

Durante a oitiva, Lopes afirmou que o caso provocou forte impacto entre os policiais militares, afetando o ambiente de trabalho e a saúde mental de diversos colegas.

— O ânimo era muito ruim, era horrível. Vários colegas, inclusive eu, foram afastados. Com tratamento psiquiátrico e psicológico — afirmou.

Segundo a testemunha, a repercussão do caso fez com que policiais, que não tiveram qualquer participação na ocorrência investigada, fossem alvo de críticas e julgamentos públicos antes mesmo da conclusão das investigações.

— O meu filho não tinha mais colegas. Nos chamavam de assassinos, de "Uber", e nem queriam saber quem era ou o que tinha feito — relatou, em referência à acusação de que os réus teriam dado carona a Gabriel após a abordagem.


Testemunha fala sobre trajetória e caráter de soldado

Após o intervalo, a última testemunha de defesa foi Raquel de Lima Pereira Souza, vizinha e amiga da mãe do soldado Raul Veras Pedroso.

Durante o depoimento, a testemunha descreveu Pedroso como uma pessoa humilde, dedicada à família e respeitada na comunidade onde cresceu.

Segundo Raquel, após a morte do pai, quando a irmã ainda era criança, Pedroso passou a ajudar financeiramente a mãe e, anos depois, ingressou na Brigada Militar por meio de concurso público, em 2014. Na mesma época, conforme relatou, a mãe do policial recebeu diagnóstico de câncer.

Ao falar sobre a personalidade do réu, a testemunha afirmou que ele exercia uma "liderança positiva" na comunidade.

Caráter se constrói e o dele foi bem construído — declarou.

Nos momentos finais da oitiva, Raquel também defendeu a imagem do policial.

Ele não é esse monstro — afirmou.



​Relembre o caso

Gabriel havia se mudado de Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre, para São Gabriel com o objetivo de prestar o serviço militar obrigatório no Exército. Na noite do dia 12 de agosto de 2022, enquanto estava hospedado na residência de um tio no Bairro Divina Providência, o jovem saiu do imóvel para tomar uma cerveja.​

Uma moradora das proximidades acionou a Brigada Militar via telefone relatando que um homem desconhecido tentava forçar o portão de acesso à sua propriedade. Conforme o registro da denúncia e imagens gravadas por testemunhas na localidade, os três policiais atenderam a ocorrência, imobilizaram Gabriel e o colocaram no compartimento de transporte da viatura. Relatos coletados durante o inquérito apontaram o uso de golpes de cassetete. Essa foi a última ocasião em que o jovem foi visto com vida.

O corpo de Gabriel foi localizado uma semana depois, em 19 de agosto de 2022, submerso em um açude na região conhecida como Lava Pé, na zona rural do município.

No banco dos réus, estão o sargento Arleu Júnior Cardoso Jacobsen, de 46 anos, e os soldados Raul Veras Pedroso, de 32 anos, e Cléber Renato Ramos de Lima, de 44 anos. Eles respondem por homicídio qualificado por motivo fútil e por recurso que dificultou a defesa da vítima. Os três estão presos preventivamente desde agosto de 2022, no Presídio Policial Militar de Porto Alegre.

O Ministério Público afirma que vai ao júri com pedido de condenação e responsabilização dos acusados. A assistência de acusação, que representa a família de Gabriel, sustenta que o julgamento é um momento decisivo para o reconhecimento da responsabilidade criminal.

Já as defesas dos réus afirmam a inocência dos policiais e defendem que o julgamento seja baseado exclusivamente nas provas produzidas no processo.


Acompanhe o julgamento em tempo real

O Diário acompanha, em tempo real, o júri dos três policiais militares acusados pela morte de Gabriel Marques Cavalheiro. O julgamento teve início na segunda-feira (29) e tem previsão de durar quatro diasClique aqui para conferir as atualizações ao longo da cobertura.


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