“Se visse ele inteiro, tudo bem, mas daquele jeito não aceito”, diz irmão de agricultor achado em São Pedro do Sul com corpo consumido por animais

“Se visse ele inteiro, tudo bem, mas daquele jeito não aceito”, diz irmão de agricultor achado em São Pedro do Sul com corpo consumido por animais

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Na fala estremecida e cansada do agricultor João Martins, 73 anos, há mais do que a tristeza pela perda de um familiar: há o inconformismo com a maneira como tudo aconteceu. Conhecido como “Telo”, ele era irmão de Luís Darci Martins, 69 anos, encontrado morto na última sexta-feira (23), na localidade de Passo do Barroso, no interior de São Pedro do Sul. Segundo a Polícia Civil, o corpo foi localizado em um córrego de água, parcialmente consumido por animais. O crânio, porém, foi encontrado pelo próprio irmão, a cerca de 800 metros dali.


​+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp

   

A localidade fica a aproximadamente uma hora do centro da cidade. Para chegar até lá, é preciso percorrer uma estrada de chão estreita e esburacada, que corta o cerro e passa por propriedades rurais, por mais de 20 km. As casas, em sua maioria, ficam afastadas umas das outras. No Passo do Barroso, não há sinal de telefone nem acesso à internet. As notícias circulam principalmente por rádio, televisão e pelo “boca a boca” entre moradores.

Embora a Polícia Civil considere a possibilidade de que o corpo tenha sido consumido por um animal de grande porte, ainda não foi possível identificar qual espécie estaria envolvida nem esclarecer as circunstâncias do caso. Ao Diário, moradores mencionaram a onça-parda. Alguns disseram já ter visto o felino, inclusive acompanhado de filhotes; outros conhecem pessoas que encontraram o animal. Há também quem nunca o tenha visto e sequer saiba como é. Sobre a presença de javalis na região, nenhum dos vizinhos ouvidos relatou já ter visto.


Os últimos dias de Luís

Luís era solteiro e morava sozinho em uma pequena casa de madeira bruta, às margens da estrada, a cerca de 800 metros da residência do irmão. A propriedade, com cerca de meio hectare, era também o lugar onde Luís mantinha sua rotina de agricultor. 

O homem foi visto pela última vez na quarta-feira (21), por uma vizinha. Na ocasião, relatou estar sem água em casa porque a bomba havia estragado. A suspeita é de que tenha ido até uma sanga próxima buscar água, justamente na região onde o corpo foi encontrado. No local, ainda é possível observar as garrafas plásticas que ele teria levado para buscar água. Como as chamadas “campereadas” faziam parte de sua rotina, a ausência de Luís por dois dias não despertou estranhamento. 

Na sexta-feira (23), o irmão da vítima saiu de casa pela manhã para cuidar de uma vaca que estava ferida. Durante o trajeto, percebeu que seus cães farejavam algo semelhante a uma cabeça humana. Naquele momento, não conseguiu identificar com certeza o que havia encontrado e decidiu procurar a Polícia Civil, no Centro da cidade.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

No início da tarde, já com a polícia no local, o vizinho Arnil Roati de Barros contou a Telo que o corpo do irmão havia sido localizado. Os restos mortais estavam em uma área de água a cerca de cinco a dez minutos da propriedade de Luís.

Inicialmente descrito como um açude, o lugar é, na verdade, uma sanga formada a partir de uma nascente. A água fica cercada por mata fechada, sem casas nas proximidades. Nas margens, a umidade da terra forma uma camada de barro na qual ficam as pegadas de quem passa. Apesar disso, durante a observação feita pela reportagem, não foram identificadas marcas de animais no entorno. 


“Digo que foi Deus que levou, mas não estou conformado"

O corpo de Luís Martins foi encontrado parcialmente consumido por animais. Partes do abdômen e do tórax não estavam mais presentes, assim como órgãos internos. Também não havia vestígios do pescoço. A notícia e a maneira como o irmão foi encontrado abalaram Telo. Ele não viu o corpo de Luís e se despediu apenas no velório, realizado com o caixão fechado na Igreja Nossa Senhora de Fátima dos Bianchini. O sepultamento ocorreu no sábado (24), no cemitério da mesma comunidade rural, após passar por perícia do IGP ainda na sexta. 

Foto: Vinicius Becker (Diário)

– Digo que foi Deus que levou, mas não estou conformado por causa do jeito que nós encontramos o corpo. Não tenho mais nada para falar, só a tristeza que ficou, porque ninguém vai querer perder alguém assim. Se eu visse e encontrasse o corpo dele inteiro, tudo bem, mas daquele jeito, eu não aceito – diz o irmão. 

Enquanto aguarda respostas, Telo continua percorrendo a propriedade e a mata em busca de vestígios do irmão. Na terça-feira (27), durante a entrevista ao Diário, ele encontrou, pela primeira vez, o chapéu que Luís usava antes de morrer dentro da água. Com a voz embargada, optou por deixar o objeto às margens do córrego. 


O que a investigação tenta esclarecer

A causa da morte de Luís ainda não foi determinada. Entre as possibilidades consideradas inicialmente pela polícia está a de que o agricultor tenha sofrido um mal súbito ou morrido por causas naturais. Segundo o irmão, Luís apresentava um quadro de alcoolismo e episódios de desmaio eram comuns.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Outra hipótese levantada pela polícia é a de que animais tenham consumido partes do corpo depois da morte, inclusive cachorros. No entanto, os cães que estavam nas proximidades pertencem a Telo e mantinham convívio com Luís. Conforme constatado pela reportagem, os animais são de pequeno a médio porte e não apresentaram comportamento diferente na sexta. 

A hipótese de um ataque de onça-parda ou de outro animal também foi levantada, mas não há confirmação pericial de que isso tenha acontecido. Da mesma forma, a possibilidade de homicídio não foi completamente descartada. 

O delegado Giovanni Lovato informou que a investigação depende do laudo pericial para avançar na definição da causa da morte. Segundo ele, exames dessa natureza podem levar cerca de um ano e meio para serem concluídos. O fato de a parte da frente do tórax e do abdomen terem sido arrancados, assim como os órgãos internos, dificulta a perícia, pois se houve alguma agressão ou disparo em um eventual crime, os vestígios podem não serem encontrados pelos peritos. Como o coração e o pulmão também não foram achados, também fica difícil saber se a vítima pode ter morrido de infarto ou por afogamento.


Quem era Luís Darci Martins?

Luís Darci Martins nasceu em São Pedro do Sul, em 23 de junho de 1957. Era filho de João Nascimento Martins e Gema Fachini Martins, ambos já falecidos, e tinha dois filhos, Sílvio e Aluízio Tavares Martins.

Trabalhava na agricultura desde jovem, em atividades com familiares e vizinhos. Também passou um período no Paraguai, onde trabalhou no campo. Pessoas próximas o descreviam como tranquilo, bem-humorado e dedicado ao trabalho.

​

POR

Vitória Sarturi

[email protected]

“Está mais compatível com um ataque de onça”, afirma bióloga sobre morte de agricultor em São Pedro do Sul; corpo foi encontrado parcialmente consumido por animais Anterior

“Está mais compatível com um ataque de onça”, afirma bióloga sobre morte de agricultor em São Pedro do Sul; corpo foi encontrado parcialmente consumido por animais

“Tudo que está bom pode ser melhorado”, diz general que assumirá Secretaria de Segurança Pública do governo Zucco Próximo

“Tudo que está bom pode ser melhorado”, diz general que assumirá Secretaria de Segurança Pública do governo Zucco

Plantão
Logo tv diário
Logo rádio diário

AO VIVO

ASSISTA AGORA
MAIS BEI