Foto: Mateus Ferreira (Diário)
Mais um instrumento simbólico de enfrentamento à violência contra a mulher passou a integrar a paisagem urbana de Santa Maria na manhã desta sexta-feira (20). O sexto Banco Vermelho do município foi instalado em frente à Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), na Rua Duque de Caxias, reforçando a campanha de conscientização e combate ao feminicídio.
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O banco traz a frase “Sentar e refletir. Levantar e agir” e divulga telefones para denúncias. A iniciativa integra um movimento internacional que utiliza o equipamento urbano como símbolo de alerta permanente à sociedade sobre a violência de gênero.
Com a nova instalação, Santa Maria passa a contar com bancos vermelhos no Calçadão (primeiro implantado na cidade), na loja Paccini Moda Íntima, na Avenida Hélvio Basso (primeira empresa privada a aderir à proposta), no campus da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), no Fórum e, agora, na sede da Deam.

Prevenção como estratégia
Titular da Deam, a delegada Elizabete Kaoru Shimomura afirma que a instalação ocorre em um momento considerado crítico em relação aos índices de violência.
- É um momento bastante oportuno. Não obstante todos os esforços repressivos para diminuirmos o número de feminicídios e de violência doméstica, não estamos conseguindo. O que nos resta é trabalharmos concomitantemente com a repressão a questão da prevenção - destaca.

Segundo a delegada, o Banco Vermelho representa exatamente essa mudança de foco.
- Prevenção, reflexão, tentativa de mudança de cultura, para que no futuro a gente consiga, de fato, vencer essa que é uma verdadeira guerra. Nós temos, hoje, uma mulher morta a cada três dias. Isso é inaceitável - pontua.
Shimomura ressalta ainda o caráter simbólico e comunitário do equipamento.
- Este banco vai ficar aqui na frente da delegacia, sempre reforçando que as mulheres podem vir aqui quando se sentirem ameaçadas. Mas esse banco serve para toda a comunidade. Ele tem uma simbologia muito grande e espero que se reflita em atitudes que beneficiem a preservação da vida das nossas mulheres - conclui.
Alerta e pacto social
O delegado regional de Polícia Civil, Sandro Meinerz, enfatiza o simbolismo da cor vermelha como sinal de alerta e convocação à responsabilidade coletiva.
- O vermelho é uma cor impactante, forte, chama a atenção. Ele faz com que a gente olhe atentamente para isso. O banco significa proteção, significa atenção e também um pacto da sociedade na proteção da vida das mulheres - afirma.
Meinerz lembra que o Rio Grande do Sul já soma 16 feminicídios em 2026 e cita um caso em investigação na Região Metropolitana que pode elevar esse número.
- Isso preocupa, e muito. Por mais que a pena do feminicídio tenha aumentado para 20 a 40 anos de prisão e que estejamos flexibilizando os motivos para concessão de medidas protetivas, ainda falta mais. Precisamos conscientizar a sociedade de que a prevenção é o melhor caminho - diz.

O delegado destaca a atuação integrada da rede de proteção, incluindo a Patrulha Maria da Penha da Brigada Militar e as delegacias especializadas, mas reconhece que muitas vítimas ainda têm dificuldade em procurar ajuda.
- Elas têm vergonha, têm medo, não se sentem confortáveis. Precisamos melhorar cada vez mais o acolhimento para que vejam no Banco Vermelho a salvação da sua vida, da sua integridade física e a de seus filhos - conclui o delegado regional.

Medidas protetivas salvam vidas
O promotor de Justiça Antônio Augusto Ramos de Moraes, especializado em violência doméstica, reforça a importância das medidas protetivas de urgência como instrumento concreto de prevenção.
- As medidas protetivas salvam vidas. Se pegarmos o número de feminicídios, a grande maioria das vítimas não tinha medida protetiva em vigor. Muitas sequer haviam buscado esse mecanismo - afirma.
Segundo ele, embora não representem garantia absoluta, funcionam como instrumento inibitório em relação ao agressor. A medida protetiva é mais um mecanismo de proteção para evitar que uma nova violência ocorra. Os dados mostram que efetivamente têm surtido efeito. O promotor destaca ainda a celeridade na concessão das medidas.
- Hoje o processo é eletrônico. A vítima faz o registro e imediatamente o pedido é encaminhado ao Judiciário. Sempre há um magistrado de plantão 24 horas. Em poucas horas, como regra, a medida é deferida - diz.

Conforme dados apresentados por Moraes, Santa Maria registra atualmente entre 300 e 350 inquéritos por mês relacionados à violência doméstica, o que representa uma média aproximada de 10 medidas protetivas solicitadas por dia. Segundo o promotor, é um número alto e preocupante, mas também demonstra que as vítimas estão procurando o sistema de Justiça para se proteger.
Ele acrescenta que o registro da ocorrência aciona automaticamente a rede de apoio, incluindo o Centro de Referência da Mulher, responsável por acolhimento e acompanhamento especializado.
Reflexão também para o agressor
Secretário de Sistemas Penal e Socioeducativo do Rio Grande do Sul, Jorge Pozzobom explica que o banco instalado na Deam foi confeccionado dentro do sistema prisional por apenados condenados por violência doméstica. Segundo o secretário, o Estado mantém atenção integral às vítimas, mas também passou a adotar medidas voltadas ao comportamento do agressor.
- Lá no presídio é proibido que a vítima visite o preso por agressão, porque muitas vezes ela é coagida. É uma segunda violência - declara.

Pozzobom defende que o enfrentamento ao feminicídio passa por compreensão das etapas do ciclo da violência.
- Começa com ameaça, passa pela agressão, vem o arrependimento do agressor e, muitas vezes, culmina no feminicídio. Precisamos tratar isso com seriedade e responsabilidade - destaca.
Ele também destaca a estrutura local.
- Santa Maria tem a maior rede de proteção à mulher do Estado, e mesmo assim ainda enfrenta números elevados de violência doméstica - destaca.
Rede de apoio
Em Santa Maria, mulheres em situação de violência podem buscar atendimento no Centro de Referência da Mulher, que oferece assistência social com ou sem medida protetiva. O serviço atende encaminhamentos da rede de saúde e assistência, além de demanda espontânea.
Em caso de risco iminente, a orientação é acionar o 190 da Brigada Militar ou o 197 da Polícia Civil. A Deam é responsável pela prevenção, apuração e investigação dos crimes. A Guarda Municipal atua com a viatura Guardiões Maria da Penha, enquanto a Brigada Militar mantém a Patrulha Maria da Penha na fiscalização das medidas protetivas.
Feminicídios no Estado
O Rio Grande do Sul registra, até o momento, 16 feminicídios em 2026. O caso mais recente ocorreu em Cacequi, onde a jovem Cássia Girardi do Nascimento, 26 anos, foi morta a tiroshoras antes de conseguir medida protetiva. O ex-namorado da vítima é o principal suspeito do crime e está preso.
Diante dos números, autoridades reforçam que o Banco Vermelho não é apenas um símbolo, mas um chamado à ação coletiva. A mensagem, estampada na estrutura recém-instalada em frente à delegacia, resume o objetivo da mobilização: refletir sobre a violência e agir para interromper o ciclo antes que ele termine em morte.