Foto: Vinicius Becker (Diário)
Quem circula pela BR-158 a partir de Santa Maria, em direção ao norte do Rio Grande do Sul, continua a enfrentar problemas nas condições do asfalto. A rodovia, importante corredor logístico para o escoamento de grãos, apresenta desgastes em vários trechos. De acordo com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a degradação é motivada, em grande parte, pelas chuvas registradas no Estado. Neste ano, a autarquia federal investiu cerca de R$ 10 milhões no trecho entre Santa Maria e Júlio de Castilhos.
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Desvios constantes

Para os motoristas que utilizam a rodovia, desviar dos desníveis faz parte da rotina. Percorrer o trecho impõe desafios que, em alguns pontos, exigem o uso do acostamento ou, segundo relatos de motoristas, até da pista contrária.
Entre Santa Maria e Val de Serra, os buracos não são o principal problema observado. O que chama a atenção são os desníveis formados ao longo da rodovia. Em pontos próximos a Itaara, entre a Socepe e a Brita Pinhal, o asfalto apresenta desgastes que formam ondulações e desníveis consideráveis, provocando trepidação nos veículos.
Em outros trechos, a rodovia intercala áreas em boas condições com pontos onde o pavimento apresenta desgaste e precisa de recuperação.
Em direção a Júlio de Castilhos, o Dnit realiza a retirada de uma camada antiga de asfalto e a recomposição do pavimento na localidade de Guassupi, na chegada ao município. No trecho, havia operação de pare e siga na tarde desta segunda-feira (10).
Entre Santa Maria e Val de Serra, a reportagem não encontrou equipes trabalhando na rodovia durante a passagem pelo trecho. No trevo de Val de Serra, uma placa informa os motoristas sobre obras nos próximos 14 quilômetros e estabelece limite de velocidade de 60 km/h.
“De caminhão, você dá um salto lá dentro da cabine”

O empresário Cleber Simonetti, 49 anos, atua no ramo de combustíveis e administra um posto e uma frota de seis caminhões-tanque em Júlio de Castilhos. Ele percorre a BR-158 diariamente e conhece os principais problemas do trecho.
– O primeiro gargalo é a serra. Depois, até Val de Serra, buraco não tem, mas eles fazem aqueles remendos e fica tudo desparelho. Botam ali um piche e o carro vai vibrando. De caminhão, você dá um salto lá dentro da cabine – descreve Simonetti.
Segundo o empresário, os desníveis também são frequentes no trecho entre Júlio de Castilhos e o trevo de Tupanciretã. Ele afirma ter presenciado acidentes que, na avaliação dele, estariam relacionados às condições da pista.
Além dos riscos durante a viagem, Simonetti afirma que as condições da rodovia aumentam o desgaste dos veículos.
– Na hora, como não tem buraco, tu não corta pneu. Mas como tu faz um uso muito seguido, diminui a durabilidade da suspensão. Gastei R$ 7.500 para fazer a suspensão da minha caminhonete. No caminhão, a mola quebra muito, principalmente no inverno. Dá naqueles solavancos, quebra mola, quebra balança. Uma mola mestra custa entre R$ 1.600 e R$ 2.000 – relata.
“A 158 tem uma doença grave”

Para o professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Luciano Pivoto Specht, mestre e doutor em Engenharia Civil e especialista em pavimentação asfáltica, os R$ 10 milhões representam um investimento relevante para os serviços de manutenção, mas não resolvem o problema estrutural da BR-158.
Segundo Specht, a rodovia apresenta um problema antigo e precisa passar por uma intervenção de maior porte. Ele explica que os serviços de manutenção podem melhorar as condições da pista no curto prazo, mas uma recuperação estrutural exigiria um investimento muito maior.
– A 158 tem uma doença grave, um problema estrutural que não foi corrigido. Ela é muito antiga e precisa de um projeto estruturante. Historicamente, quando uma rodovia completa 10 ou 12 anos, ela precisa passar por um processo de reforço estrutural. E esse é um processo que não custa R$ 10 milhões; custa R$ 50 milhões, R$ 70 milhões, dentro de uma restauração pesada que vai deixar ela ter mais um ciclo de 10 ou 12 anos em excelente estado – explica o professor.
Specht ressalta que, na avaliação dele, os recursos atuais permitem ao Dnit manter a rodovia em condições de circulação, mas não realizar uma recuperação estrutural completa.
– O número que eles têm de R$ 10 milhões é um bom número, é um número acima da média inclusive para outras rodovias do Estado. A rodovia está melhorando, o Dnit tem canalizado esforço para isso. Só que ela precisa de um projeto estruturante, um projeto que dê a ela um novo ciclo de vida e não simplesmente ficar tapando buraco e fazendo coisinhas – afirma.
“A manutenção evita que a rodovia piore”
O especialista em mobilidade urbana Carlos Félix também defende investimentos de maior porte na recuperação da BR-158. Para ele, a manutenção é necessária para evitar a piora das condições da pista, mas não resolve os problemas estruturais da rodovia.
– O grande desafio continua sendo garantir recursos permanentes para uma recuperação estrutural mais ampla. Daí, pensamos nos itens: reforço de pavimento, melhoria na drenagem, estabilização de taludes e uma modernização da infraestrutura. Caso contrário, a rodovia vai continuar exigindo sucessivas operações emergenciais – afirma Félix.
Segundo o especialista, os R$ 10 milhões são importantes para atender às demandas imediatas, mas não seriam suficientes diante das necessidades da rodovia.
– A manutenção evita que a rodovia piore. É necessária e deve ser constante. Investimento estrutural é o que efetivamente faz a rodovia melhorar, dar um salto de qualidade. A BR-158 ainda está muito mais na manutenção permanente do que na melhora efetiva – avalia.
O que diz o Dnit
Em nota, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) informa que a BR-158, no segmento entre Santa Maria e Júlio de Castilhos, conta com contrato de manutenção e conservação vigente.
A autarquia explica que, em razão dos danos ocasionados pelas chuvas registradas em julho deste ano, equipes executam serviços emergenciais de tapa-buracos ao longo da rodovia, com o objetivo de preservar as condições de trafegabilidade e garantir a segurança dos usuários.
Entre 2024 e 2025, foram investidos aproximadamente R$ 36 milhões no trecho. Já em 2026, o aporte chega a cerca de R$ 10 milhões até o momento.
Paralelamente às ações emergenciais, o Dnit informa que o contrato de manutenção contempla a execução de serviços de recomposição do pavimento no segmento entre Itaara e Júlio de Castilhos.