Foto: Vitória Parise (Diário)
Advogado Jean Severo, que defende os dois soldados da Brigada Militar, disse que pediria a prisão de testemunha por falso testemunho
O terceiro dia do júri popular do caso Gabriel Marques Cavalheiro, nesta quarta-feira (1), começou com momentos de conflito e embate entre defesa e acusação envolvendo o depoimento de uma das moradoras da região onde o corpo do jovem foi encontrado. Estão sendo julgados pelo crime, no Fórum de São Gabriel, o sargento Arleu Júnior Cardoso Jacobsen e os soldados Raul Veras Pedroso e Cléber Renato Ramos de Lima.
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Os trabalhos desta quarta começaram por volta das 9h20min com o depoimento de Carmem Fontana Fuganti, 75 anos, proprietária, junto do marido, Telvi Luiz Fuganti, 81 anos, de área nas redondezas da barragem da região de Lava Pé. Nas proximidades, também vive Luiz Carlos de Almeida, 63 anos, policial militar da reserva ouvido no primeiro dia do julgamento.
Como ocorreu na terça-feira com o depoimento da mulher que chamou a Brigada Militar no dia da abordagem a Gabriel, a juíza Liz Grachten não permitiu fotos ou vídeos dos depoimentos do casal e do policial da reserva.
Em depoimento prestado na segunda-feira (29), Almeida havia sido questionado sobre registros telefônicos apresentados no plenário, que indicavam ligações entre o telefone dele e o de Telvi, nos dias em que o caso estava sendo apurado. Na ocasião, o policial da reserva afirmou não lembrar das chamadas. Segundo o relato dado para a juíza, as ligações poderiam ter sido feitas pela mulher dele para a esposa de seu Telvi, já que, segundo ele, as duas costumavam conversar sobre flores.
Ainda conforme os registros apresentados no júri, no dia em que a jaqueta de Gabriel foi encontrada teriam ocorrido 13 ligações entre os telefones de Telvi e Almeida. Uma delas teria duração aproximada de 20 minutos.
Nesta quarta-feira, porém, durante o depoimento de Carmen, a testemunha afirmou que nunca havia conversado com a esposa do policial da reserva. Ela também disse lembrar da suposta conversa sobre flores mencionada anteriormente no julgamento.
Outro ponto abordado durante o depoimento envolveu a existência de um homem descrito como “moreno a cavalo”, que estaria cuidando da propriedade do casal na época dos fatos. A defesa dos policiais quis saber a identidade desse possível caseiro e apresentou ao plenário um trecho do depoimento de Luiz Carlos em que ele teria mencionado ter visto um homem com essas características na propriedade.
Carmen, no entanto, negou a informação durante a audiência. Após a negativa da testemunha em relação às ligações telefônicas e aos relatos apresentados anteriormente no júri, o advogado Jean Severo, que defende os dois soldados no julgamento, ameaçou até mesmo pedir a prisão preventiva de Carmen por falso testemunho e afirmou que "não iria liberá-la dos depoimentos".
O pedido de prisão preventiva não foi acatado.
"A dor da família também é minha"
Luiz Carlos de Almeida, apesar de ser policial militar da reserva, foi ouvido no júri na condição de morador da região onde o corpo de Gabriel foi encontrado, em agosto de 2022. Durante o julgamento, foi destacado que ele não conhecia os policiais acusados no processo nem a família de Gabriel.
Após os questionamentos feitos pela defesa, a acusação também realizou perguntas para Carmen. No encerramento do depoimento, o promotor Eugênio Paes Amorim pediu para que a testemunha olhasse para a família de Gabriel, que acompanhava a sessão sentada nas cadeiras do plenário.
Carmen olhou para os familiares e acenou. A família respondeu ao gesto.
Quando a testemunha voltou a olhar para a frente, o promotor fez a última pergunta. Ele questionou se, pensando naquela família que havia perdido o filho, ela omitiria ou negaria algum fato para proteger alguém.
A pergunta emocionou a testemunha. Muito abalada, ela respondeu:
– Nunca, nunca. A dor deles é minha também.
Depois disso, o depoimento foi encerrado.