Fotos: MPRS (Divulgação)
Grupo de cerca de 30 pessoas arrendou duas fazendas em Alegrete e simulava negociação de bovinos para lavar o dinheiro obtido com o tráfico de entorpecentes
Uma operação do Ministério Público, em conjunto com a Brigada Militar (BM) e a Polícia Penal, desarticulou um esquema criminoso de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas baseado na simulação de comércio de bovinos inexistentes. A base ficava em Alegrete, mas tinha abrangência em diversas cidades da Fronteira Oeste, incluindo São Gabriel. Nove pessoas foram presas.
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A investigação identificou uma organização criminosa que movimentou cerca de R$ 100,7 milhões com uso de propriedades rurais arrendadas e transações fictícias. Nesta terça-feira (9), durante a Operação Convergência Nacional RS, foram cumpridos 35 mandados de busca e apreensão e oito de prisão preventiva, além de ações em dois municípios de Santa Catarina.
As ordens judiciais foram cumpridas nos presídios estaduais de São Gabriel, Cachoeira do Sul e Uruguaiana. As outras cidades abrangidas na operação foram Alegrete, Quaraí, Pelotas, Capão do Leão, Itaqui, Canoas e São Leopoldo. Em Santa Catarina, houve ações em Palhoça e Joinville.
A operação, que também contou com a parceria da Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor de Porto Alegre e da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação, integra iniciativa do Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC), voltada ao enfrentamento de facções em todo o país.
– A operação é mais uma iniciativa estratégica no combate às organizações criminosas, especialmente no enfrentamento às facções, atacando diretamente a estrutura financeira. Além disso, destaco a atuação em conjunto da BM e Polícia Penal na estratégia para o cumprimento dos mandados, bem como na transferência de apenado que liderava o esquema – destaca o promotor Rogério Meirelles Caldas, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP.
Até as 14h30min desta terça-feira, além dos nove suspeitos presos, foram apreendidos 46 telefones celulares, oito aparelhos eletrônicos (notebooks e outras máquinas), duas armas, 15 veículos e cerca de R$ 37 mil em dinheiro. Um imóvel foi bloqueado judicialmente.

Boi Fantasma
A investigação durou 10 meses. O trabalho revelou um esquema estruturado de lavagem de dinheiro, no qual o grupo, de até 30 pessoas, simulava atividade agropecuária para ocultar recursos ilícitos. Para isso, arrendou duas propriedades rurais em Alegrete e utilizou “laranjas” para emissão de notas fiscais e Guias de Trânsito Animal (GTAs), sem qualquer movimentação real de rebanho. Monitoramentos, inclusive com uso de drones, confirmaram a inexistência de gado nas áreas investigadas, apesar da intensa movimentação documental.
Segundo o MP, o esquema era comandado por um traficante, conhecido como “rei do gado”, que atuava de dentro de um presídio, sempre com divisão organizada de tarefas entre familiares e terceiros, responsáveis pela movimentação financeira, ocultação patrimonial e emissão de documentos. Somente cinco integrantes do núcleo principal movimentaram cerca de R$ 24,8 milhões, especialmente nos últimos dois anos.

Parte dos valores foi direcionada a plataformas de apostas, inclusive fora do Estado, como etapa final de dissimulação dos recursos ilícitos. O líder da facção foi transferido para o Módulo de Segurança Máxima da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc). O Ministério Público não revelou em que presídio o traficante cumpria pena.
A investigação apontou mecanismos típicos de lavagem de dinheiro, como falsidade ideológica, vendas fictícias entre integrantes e movimentações incompatíveis com a renda declarada. Provas documentais, fiscais, bancárias e técnicas, inclusive dados do sistema de defesa agropecuária, evidenciaram inconsistências, como o tempo reduzido de permanência dos supostos animais nas propriedades, incompatível com o ciclo real de criação, comprovando que o gado existia apenas no papel.