"Está vivo por milagre", diz irmã de pedestre atropelado sobre a calçada em Santa Maria

Autor: Andreina Possan e Mateus Ferreira

Foto: Mateus Ferreira e Reprodução

A família de Alcione Ottonelli Pithan, 64 anos, vive dias de indignação, revolta e desconfiança após a divulgação de imagens que contradizem o registro inicial do atropelamento ocorrido na manhã de sábado (17), na Rua Euclides da Cunha, em Santa Maria. A principal contestação diz respeito à versão apresentada no boletim de ocorrência, que apontava que a vítima teria invadido a pista abruptamente, informação que embasou a decisão de não autuar o motorista em flagrante. Para os familiares, o vídeo que veio a público escancara inconsistências graves e reforça a necessidade de uma apuração rigorosa.

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A irmã da vítima, Circe Ottonelli Pithan, 63 anos, relata o impacto emocional causado pela divergência entre o que foi inicialmente informado à família e o que as imagens mostram. Segundo ela, desde o início havia estranhamento em relação à narrativa oficial, por não condizer com o perfil do irmão:

– É muito triste o que estamos vivendo porque, em um primeiro momento, fomos informado que ele havia atravessado a rua abruptamente. Nós desconfiamos dessa informação, mas era o que tínhamos. Não é o perfil dele, ele é uma pessoa calma, cuidadosa, atravessa em faixa de segurança, é uma pessoa que todo mundo conhecia, ele fazia essa caminhada regularmente.

Circe afirma que a desconfiança aumentou quando a família teve acesso ao boletim de ocorrência e percebeu inconsistências nos dados registrados. A irmã questiona a ausência de identificação das supostas testemunhas, a liberação do veículo sem perícia e até a realização de procedimentos básicos.

– Quando fomos à delegacia buscar o boletim e as informações, os dados são todos inconsistentes. Hoje eu não confio em mais nada do que foi feito na primeira coleta de informações. É muito triste para a família ver no vídeo que ele estava na calçada, andando calmamente – afirma.

Circe destaca a gravidade das lesões sofridas pelo irmão e a revolta diante do fato de o motorista não possuir habilitação.

– Ele (condutor) quase matou meu irmão. Meu irmão está vivo por milagre. Ele está todo fraturado. Ele tem a coluna toda fraturada. Ontem (domingo) ele fez a cirurgia de fêmur. Mas graças a Deus ele está lúcido,  está conversando e a gente quer ele com a gente – revela.

A assessoria de comunicação do Complexo Hospitalar Astrogildo de Azevedo (CHAA), onde Alcione Pithan está internado, informou à reportagem, na tarde desta segunda (19), que o paciente se encontra em estado "regular". "Está consciente, responsivo, tendo realizado cirurgia no domingo (18) devido a uma fratura no fêmur". Segundo o hospital, o procedimento transcorreu bem e paciente está em recuperação.


Investigação

A família informou que procurou a Polícia Civil para solicitar o aprofundamento das investigações e afirmou que seguirá acompanhando o caso de forma ativa. Segundo os familiares, a intenção é cobrar esclarecimentos em todas as instâncias possíveis e manter o tema em debate público.

A irmã da vítima disse a mobilização envolve não apenas o trabalho da polícia, mas também o acionamento do Ministério Público e o apoio da sociedade para evitar que situações semelhantes se repitam.

– Nós viemos à polícia para solicitar uma investigação. Eles vão investigar os fatos, mas nós vamos ficar juntos, vamos ao Ministério Público e contamos com toda a população divulgando e nos apoiando, assim como a imprensa está fazendo – garante Circe. 

Além do pedido por aprofundamento das investigações, a irmã da vítima também levantou questionamentos sobre a retirada do veículo do local do acidente e sobre quem teria assumido a condução após o atropelamento. A familiar demonstrou preocupação com possíveis irregularidades no procedimento adotado logo após a ocorrência, especialmente pelo fato de o condutor não possuir habilitação:

– Esse carro, foi ele (o condutor) que saiu dirigindo (após o acidente)? Chamaram alguém? Porque sem carteira ele não pode ter dirigido esse carro. Alguém veio retirar esse carro? São muitos pontos de interrogação para um ser humano que está no hospital, que estava em estado grave e agora está estável, graças a Deus, mas que sofreu algo gravíssimo.


O que diz a polícia

Conforme o delegado regional Sandro Meinerz, o boletim policial foi confeccionado com base em relatos de pessoas que estavam próximas ao local e indicavam que a vítima teria invadido a pista ao tentar atravessar a via, versão que não condiz com o que aparece nas imagens já analisadas pela investigação. O carro era conduzido por um homem de 45 anos.

Segundo Meinerz, o histórico apresentado pela Brigada Militar apontava que Pithan estaria na pista de rolamento no momento do atropelamento, o que levou o delegado de plantão a não autuar o condutor em flagrante, mesmo ele não sendo habilitado. Nesse contexto, o caso poderia ser enquadrado, inicialmente, como lesão corporal culposa, considerada infração de menor potencial ofensivo em determinadas circunstâncias.

– A versão apresentada é de que a vítima teria invadido a via na frente do veículo. Esses relatos teriam sido feitos por populares que não foram identificados no registro de ocorrência. Com base nessa informação, o delegado de plantão entendeu que não caberia a autuação em flagrante, mesmo com o condutor sem habilitação.

No entanto, a Polícia Civil teve acesso a um vídeo que demonstra situação oposta. As imagens mostram que a vítima caminhava pela calçada, acompanhada de seu cão, quando foi atingida pelas costas por um Fiat Grand Siena que invadiu o passeio público em velocidade incompatível com a via. Para o delegado, esse elemento altera completamente o contexto da ocorrência e pode levar a um enquadramento criminal mais grave.

– O vídeo demonstra exatamente o contrário do que constou no registro inicial. A vítima estava no passeio público e foi atingida pelas costas por um veículo que invadiu a calçada. Isso muda todo o cenário da ocorrência, e a não autuação decorreu exclusivamente da versão apresentada no boletim.

O delegado avalia ainda que a condução de veículo sem habilitação, associada ao excesso de velocidade e ao atropelamento de um pedestre sobre a calçada, pode caracterizar até mesmo dolo eventual, quando o motorista assume o risco de produzir o resultado. Nesse caso, o enquadramento deixaria de se restringir ao Código de Trânsito Brasileiro e poderia migrar para o Código Penal, como lesão corporal grave ou gravíssima.

Enquanto isso, a Polícia Civil de Santa Maria informou que trabalha para aprofundar a investigação. A apuração se concentra agora na busca por novas imagens de câmeras de segurança que permitam verificar há quanto tempo o condutor trafegava em alta velocidade antes do atropelamento, além da identificação das pessoas que teriam prestado os relatos iniciais à Brigada Militar. O motorista deverá ser ouvido nos próximos dias, e o caso recebeu prioridade.

Procurada, a Brigada Militar informou que a versão de que o pedestre teria sido atropelado na rua, e não na calçada, foi repassada por moradores da região aos policiais militares que atenderam a ocorrência.

 

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