Foto: Polícia Civil (Divulgação)
Operação Quarta Colônia Livre foi deflagrada em 2025, em seis municípios da região de imigração italiana, além de Santa Maria, Porto Alegre e Charqueadas.
Desde a soltura da maioria dos réus da Operação Quarta Colônia Livre, determinada pela Justiça no fim de julho, os índices de criminalidade dispararam na região da Quarta Colônia. Homicídios, tentativas de assassinato, incêndios criminosos e ameaças voltaram a assombrar municípios como Agudo, Faxinal do Soturno, Dona Francisca, Nova Palma e Restinga Sêca, alimentados principalmente pela disputa entre duas facções criminosas que buscam controlar o tráfico de drogas na região.
A decisão que reacendeu o conflito
No dia 30 de julho, a 1ª Vara Estadual de Processo e Julgamento dos Crimes de Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro do Rio Grande do Sul anulou as provas colhidas na Operação Quarta Colônia Livre e determinou o trancamento da ação penal que corria contra 62 réus. Com isso, o juiz André de Oliveira Pires mandou soltar quase todos os presos e revogou o uso de tornozeleiras eletrônicas impostas a eles.
O magistrado entendeu que as medidas cautelares da investigação, interceptações telefônicas, quebras de sigilo bancário, buscas e apreensões e prisões, deveriam ter sido autorizadas desde o início pela vara especializada de Porto Alegre, e não pela Justiça de Faxinal do Soturno, já que desde o começo já havia indícios de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Como toda a denúncia se apoiava nesse material, a ação penal foi declarada nula. O Ministério Público pode recorrer da decisão ao Tribunal de Justiça do RS.
A exceção ficou por conta de três investigados presos em flagrante durante os mandados, dois por tráfico e um por posse de arma de fogo, cujos processos seguem tramitando normalmente.
Para o delegado regional de Santa Maria, Sandro Meinerz, a decisão judicial agravou um conflito que já existia entre duas facções criminosas na região. Segundo ele, a saída de todo o grupo de pessoas que estavam presas ou sob restrições intensificou a disputa por pontos de venda de drogas.
- Quando prendemos membros de um grupo criminosos na Operação Quarta Colônia Livre, tiramos de circulação pessoas ligadas diretamente ao tráfico de drogas e enfraquecemos esse grupo. Agora, essa decisão da Justiça agravou um conflito que já existia entre as duas facções criminosas na região, que voltou com mais intensidade. Não só Faxinal, mas outros municípios também sofrem com a alta violência entre esses grupos criminosos - diz o delegado regional.

Meinerz detalha que o conflito entre as facções já resultou nos últimos meses em três homicídios. Além de um homicídio em Faxinal do Soturno, um duplo homicídio em Dona Francisca, além de tentativas de assassinato em Nova Palma e Faxinal do Soturno. Segundo Meinerz, os incêndios criminosos registrados em residências de Agudo, Faxinal do Soturno e Dona Francisca também têm relação direta com a disputa entre os grupos.
O delegado explicou que uma facção se instalou na região por volta de 2017-2018 e se tornou hegemônica no território até a Operação Quarta Colônia Livre enfraquecê-la. Com o enfraquecimento do grupo, uma segunda facção passou a tentar ocupar o espaço deixado, dando origem ao atual conflito. Meinerz reforçou que a Polícia Civil segue trabalhando diariamente, com equipes em horários extraordinários, cumprindo mandados e realizando prisões tanto de pessoas soltas quanto de lideranças dentro do próprio sistema prisional, mesmo com a dificuldade de remontar uma operação de grande porte sem o fator surpresa.
Brigada Militar reforça ações preventivas e repressivas
O coronel Cleberson Bastianello, comandante do Comando Regional de Polícia Militar Central (CRPM-C), reconheceu que a decisão judicial, embora deva ser respeitada e cumprida, trouxe transtornos para a região e coincidiu com o aumento dos indicadores criminais. Segundo ele, houve sete homicídios registrados na Quarta Colônia neste ano, com destaque para Agudo, que sozinho somou quatro.
Apesar do cenário mais violento, o comandante destacou em entrevista ao Bom Dia, Cidade! de segunda-feira (21), na Rádio CDN 95,3 FM, que a Brigada Militar também intensificou suas ações repressivas na região. Em Agudo, as prisões por tráfico de drogas cresceram 260%,18 pessoas presas só em 2026 e, a apreensão de armas de fogo aumentou 225%, com 13 armas retiradas de circulação. Ao todo, somando também Restinga Sêca, Faxinal do Soturno e Dona Francisca, quase 20 armas de fogo foram apreendidas na região neste período. Em Restinga Sêca, houve 14 prisões por tráfico, um aumento de 133% em relação ao histórico do município.
Bastianello explicou que a corporação atua com reforço de outras unidades, como o 1º Regimento de Polícia Montada, a Força Tática do 2º Batalhão de Polícia de Choque e o Comando de Polícia Rodoviária da Brigada Militar, que fiscaliza estradas principais e vicinais na tentativa de coibir o transporte de armas e drogas. Segundo ele, agentes de inteligência também atuam de forma permanente na região, levantando dados para orientar as ações preventivas da Brigada Militar em conjunto com a Polícia Civil e o Poder Judiciário.
Déficit de efetivo chega a 50% na região
Questionado sobre a defasagem de policiais militares diante do crescimento populacional, Bastianello afirma que o Rio Grande do Sul enfrenta hoje um déficit de efetivo entre 50% e 60%, patamar que também afeta a Quarta Colônia. Segundo o comandante, esse déficit não é diretamente proporcional ao aumento dos indicadores criminais, já que a corporação tem suprido a falta de efetivo com tecnologia, câmeras, análise criminal e inteligência, o que tem permitido reduzir índices de criminalidade em boa parte do Estado.
Quando o efetivo de uma região não é suficiente, a Brigada Militar recorre ao que chama de "ações de recobrimento operacional".
– Deslocamos policiais de áreas mais estabilizadas para reforçar pontos mais críticos. Essa é uma medida que tem custo tanto financeiro quanto para as comunidades que cedem efetivo - disse Bastianello.
Como boa notícia, o comandante adiantou que parte do efetivo atualmente em formação nos cursos de soldado da Brigada Militar deve ser destinada à região central do Estado, com foco especial na Quarta Colônia, área que hoje demanda maior atenção operacional. Os números exatos desse reforço ainda não foram definidos, pois os policiais seguem em formação.
Incêndios seguem intimidando moradores
A escalada de violência tem se manifestado também em uma sequência de incêndios criminosos. Na noite de quarta-feira (26), uma residência foi completamente destruída por fogo na Rua Guajuviras, no Bairro Caiçara, em Agudo, o terceiro caso do tipo no município em menos de um mês. Segundo apurações das forças de segurança, criminosos teriam invadido o imóvel antes de atear fogo.

No dia 6 de agosto, outros dois incêndios haviam sido registrados no mesmo bairro, com poucos minutos de diferença entre um e outro. A Polícia Civil investiga a relação dos casos com a disputa entre facções pelo tráfico de drogas na região.

Homicídio de homem solto pela decisão judicial
O clima de tensão ficou ainda mais evidente com a morte de Deivis Denilson Dávila, de 36 anos, assassinado a tiros dentro de um bar na Rua das Acácias, também no Bairro Caiçara, em Agudo, por volta das 16h de sábado (15). Segundo a investigação, um suspeito chegou ao local perguntando pela vítima e a atacou a tiros quando ela saiu para buscar um pedido, fugindo em seguida a pé. Dávila foi socorrido pelo Samu e levado ao Hospital de Agudo, mas não resistiu aos ferimentos.

Dávila é um dos réus que foram soltos em 30 de julho após a anulação das provas da Operação Quarta Colônia Livre, caso no qual ele respondia. Dias antes, no dia 14 de agosto, quatro pessoas haviam sido presas por tráfico de drogas e posse ilegal de arma de fogo durante ação do 2º Batalhão de Polícia de Choque, também no Bairro Caiçara.
"De portas fechadas"
A preocupação com a violência também chegou a Dona Francisca, onde um duplo homicídio foi registrado em julho. O prefeito Saul Reck (Progressistas) afirma que os episódios recentes na região já provocam mudanças na rotina dos moradores.
– As famílias estão apreensivas. Já tem gente que não sai mais de casa à noite como saía. Dona Francisca era uma cidade muito pacata até há pouco tempo. Hoje, tem que se fechar dentro de casa quando escurece – afirma Reck
Operação Quarta Colônia Livre
A Operação Quarta Colônia Livre foi deflagrada no dia 21 de agosto de 2025, após cerca de cinco meses de investigação, e teve como objetivo desarticular facções criminosas, o tráfico de drogas e ramificações do crime organizado na região da Quarta Colônia. A ação foi coordenada pela Delegacia Regional de Polícia de Santa Maria e mobilizou mais de 300 policiais civis de diversas cidades do Rio Grande do Sul.
As investidas ocorreram em, pelo menos, seis municípios: Faxinal do Soturno, Dona Francisca, Agudo, Nova Palma, Restinga Sêca e São João do Polêsine. Durante a operação, foram realizadas prisões, buscas e apreensões de veículos, armas, entorpecentes e valores em dinheiro, além da coleta de provas documentais. A investigação identificou movimentações financeiras superiores a R$ 1 milhão.
O inquérito policial foi concluído em outubro e resultou no indiciamento de 62 pessoas por crimes como organização criminosa, tráfico de drogas, associação para o tráfico, corrupção de menores e obstrução da Justiça. Dois adolescentes também foram responsabilizados e cumprem medidas socioeducativas em regime de semiliberdade.
Em coletiva de imprensa realizada no dia 20 de outubro, o delegado regional de Santa Maria, delegado Sandro Meinerz, e a delegada de Agudo, Jaqueline Pellegrini, detalharam os desdobramentos da investigação e reforçaram que a mobilização teve como foco enfraquecer a atuação de grupos criminosos na região.
O que diz a decisão que anulou as provas
Segundo o juiz aposentado e advogado Alfeu Bisaque Pereira, a decisão não questiona a existência dos crimes investigados, mas sim a forma como a apuração foi conduzida. Desde 2024, uma resolução do Tribunal de Justiça do RS determina que investigações sobre organização criminosa e lavagem de dinheiro sejam analisadas exclusivamente pela vara estadual especializada, sediada em Porto Alegre. Como a Operação Quarta Colônia Livre teve suas principais medidas, escutas, quebras de sigilo e buscas, autorizadas pela Justiça de Faxinal do Soturno, e não pela vara especializada, o juiz André Pires considerou essas provas inválidas, o que derrubou toda a base da denúncia do Ministério Público.
Para Pereira, a investigação em si não desaparece, mas as provas precisarão ser reapresentadas e autorizadas pela vara competente para voltarem a ter validade. A decisão ainda não é definitiva e pode ser revertida pelo Tribunal de Justiça caso o Ministério Público recorra, algo que, na avaliação do jurista, deve enfrentar dificuldades diante da fundamentação apresentada.
Diante desse cenário, tanto a Brigada Militar quanto a Polícia Civil reforçam que seguem atuando diariamente nos municípios da Quarta Colônia, combinando policiamento preventivo, inteligência e investigação para tentar conter o avanço da criminalidade e devolver a sensação de segurança à população da região.