"Companheirismo e 60 anos de união": filha de casal de agropecuriastas morto em incêndio em São Sepé relembra história dos pais

Foto: Arquivo Pessoal

O cenário na manhã desta quinta-feira (21) na localidade de Tupanci, interior de São Sepé, ainda era de fumaça e destruição. O incêndio que atingiu a sede da Cabanha Plátano durante a madrugada tirou a vida de João Maurício Faria Carvalho, 84 anos, e Valdelei Silva Carvalho, 78. Mais do que a perda da estrutura física que abrigava a família há décadas, o fogo interrompeu uma história de 60 anos de união e dedicação ao campo. 

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Por volta das 9h, a fumaça ainda subia dos escombros da residência que teve o telhado completamente derrubado pelas chamas. A reportagem acompanhou a filha do casal, a empresária Gislaine Silva Carvalho, 50 anos, ao entrar na área pela primeira vez após a tragédia.

Foto: Rian Lacerda (Diário)

No interior do imóvel, quase tudo foi consumido. Sobraram apenas algumas louças intactas e uma lembrança de valor inestimável. 

O fogo também atingiu uma espécie de farmácia veterinária da propriedade que ficava no mesmo cômodo do inicio das chamas, a sala. O local armazenava o sêmen dos animais utilizado para o melhoramento genético do rebanho da cabanha, material que possivelmente foi perdido.

A suspeita da família é de que o incêndio tenha começado na lareira do imóvel.

Genro teria tentado salvar o casal

Foto: Rian Lacerda (Diário)

O marido de Gislaine e genro das vítimas, estava na casa no momento do incêndio. Ele viajou para a propriedade na quarta-feira (20) para auxiliar no manejo do gado na manhã desta quinta (21). De acordo com a filha, eles iriam vender os animais em um remate de São Sepé. O fogo teria começado por volta das 2h da madrugada.

O genro relatou à família que o fogo já avançava da sala em direção à cozinha quando ele acordou. Em meio à fumaça, ele tentou chamar os sogros e chegou a ouvir a voz de Valdelei, mas não conseguiu chegar até o casal. Álvaro saiu da casa e quebrou a janela do quarto do casal com socos na tentativa de resgatá-los, porém não teria conseguido.

João Maurício, que possuía mobilidade limitada, não conseguiu deixar o quarto. Valdelei foi encontrada em outra peça da casa, possivelmente na tentativa de buscar uma saída.

O genro sofreu queimaduras nos braços, mãos e rosto durante a tentativa de salvamento. Ele foi socorrido e encaminhado ao Hospital Santo Antônio, em São Sepé, onde permanece em observação devido à inalação de fumaça.


Um legado de companheirismo

João Maurício e Valdelei construíram a vida no campo e formaram dois filhos com o trabalho na propriedade rural que pertencia ao avô de Gislaine. João convivia com a Doença de Alzheimer há cerca de 10 anos. Valdelei, sempre ativa e dedicada à família, assumiu o cuidado do marido.

– O maior legado que eles deixam é o companheirismo. O pai com Alzheimer, e a mãe sempre cuidou dele. Eu sempre dizia no inverno para ela separar as camas, mas ela nunca quis. Não conseguiram separar eles nunca, nem na morte – emociona-se Gislaine.

Apesar das limitações da memória, a paixão de João pelo trabalho rural permanecia viva. A filha recorda com carinho as conversas recentes na varanda de casa:

– Ele sentava aqui na frente e contava: 'tem tantas vacas lá, tantas ovelhas'. Eu chegava e ele me reconhecia, dizia: 'minha filha, hoje eu já fui no campo, juntei o gado'. E eu dizia 'que coisa boa', que estava tudo bem. Ele sempre se preocupava com a gente.

A família tentou por diversas vezes levar o casal para morar em Santa Maria, para ficarem mais próximos e receberem cuidados na cidade, mas eles recusavam a ideia de abandonar a vida no interior de São Sepé.

Cabanha Plátano

Foto: Rian Lacerda (Diário)

A propriedade onde o casal vivia é a sede da Cabanha Plátano, referência na criação e no aprimoramento genético de gado da raça Braford. O negócio também é coordenado pelo filho das vítimas, Maurício Silva Carvalho, 46 anos, que atua como médico-cirurgião em Caxias do Sul e gerenciava o rebanho à distância, com visitas mensais.

O trabalho de excelência genética desenvolvido pela cabanha acumula reconhecimentos no setor agropecuário. Na Expointer de 2022, a propriedade conquistou o prêmio de Grande Campeã Vaca Jovem da Raça Braford. O rebanho da família também obteve premiações recentes nas categorias do Mundial do Braford. Além disso, em junho de 2024, a Câmara Municipal de São Sepé aprovou uma moção de parabenização à Cabanha pelo trabalho de seleção genética e aprimoramento da raça, com destaque para a importância da propriedade ao elevar o nome do município a nível nacional.

O rebanho da propriedade estava sendo preparado para participar da próxima edição da Expointer. 

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