Apreensões de drogas quadruplicam em Santa Maria no primeiro semestre de 2026 e reforçam a cidade como rota do tráfico

Apreensões de drogas quadruplicam em Santa Maria no primeiro semestre de 2026 e reforçam a cidade como rota do tráfico

Foto: Polícia Civil (Divulgação)

Santa Maria está se tornando um dos principais pontos de passagem de grandes carregamentos de maconha no interior do Rio Grande do Sul. Os números do primeiro semestre de 2026 mostram um salto expressivo nas apreensões da droga em relação ao mesmo período de 2025, resultado de uma combinação entre a localização estratégica da cidade – cortada por rodovias que ligam às fronteiras com Argentina e Uruguai, o consumo elevado de entorpecentes puxado pela grande população universitária e flutuante, e o comando do tráfico exercido de dentro dos presídios pelas facções criminosas.

Somente a Polícia Civil já apreendeu mais de meia tonelada de drogas nestes primeiros meses de 2026, quantidade quatro vezes superior ao registrado no primeiro semestre de 2025. A maconha é a principal substância, com um salto nas apreensões de 136 para 582 quilos, um aumento de 327,5%. O delegado titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), André Diefenbach, explica o que está por trás do crescimento das apreensões e como funciona a logística do tráfico na região.

Praticamente todas as facções têm braços aqui – diz.

Segundo Diefenbach, Santa Maria reúne características que a tornam, simultaneamente, um mercado consumidor relevante e uma rota de passagem para grandes cargas destinadas a outras cidades.

– Santa Maria é uma cidade universitária, uma população média para grande, com uma população flutuante muito grande e com um consumo de entorpecente muito elevado – afirma o delegado.

O delegado diz que o comando das operações de tráfico parte de dentro do sistema prisional, onde presos são organizados por galerias segundo a facção a que pertencem. Mesmo detentos que ingressam sem vínculo com organizações criminosas acabam se filiando durante o cumprimento da pena, e saem devendo favores que costumam ser pagos com o transporte de drogas:

– Às vezes, é um cara sem antecedente, estudante, mas mal de vida, sem oportunidade, vai pegar para ganhar dinheiro fácil ​– diz.

Para o delegado, a persistência das grandes apreensões tem explicação simples: o lucro do tráfico é alto o suficiente para tornar as perdas administráveis.

– Quando pegamos uma carga de 100 quilos aqui, essa droga tinha um comprador em Santa Maria. Aí virão mais 100 quilos para tapar isso. Eles vão perder esse dinheiro, mas vão trazer de novo. E por isso, o transporte vira um ciclo – exemplifica.

Diefenbach defende que o combate mais eficaz ao tráficopassa pelo aspecto financeiro. O delegado afirma que o jeito de combater o tráfico é quando as facções sofrem altos prejuízos com as apreensões.

– Quanto mais conseguir tirar dinheiro deles, seja apreendendo droga, tomando o carro, é assim que eles enfraquecem, porque os veículos usados no transporte de drogas podem ser objeto de perdimento definitivo em favor da União pela Lei de Tóxicos – diz.

O delegado aponta o funcionamento das facções dentro do sistema prisional como um dos principais desafios para reduzir o fluxo de drogas na cidade. Segundo ele, as lideranças presas continuam comandando o tráfico de dentro das celas, protegidas da guerra de gangues na rua.

– As lideranças estão presas, estão seguras da guerra de gangues, porque estão dentro do sistema prisional. Lá dentro eles têm contato, eles dão ordens, porque o Estado ainda está sendo incapaz de proibir ou coibir o contato deles com o mundo exterior – afirma.

Além disso, a entrada constante de celulares nos presídios – por arremesso, drones ou escondidos no corpo de visitantes – é um dos principais vetores que mantêm o comando das facções ativo, mesmo com os líderes atrás das grades. Para o delegado, a solução passa por uma articulação em todas as esferas políticas para endurecer o cumprimento das penas.

– Não digo nem endurecer o tempo de pena, mas endurecer o cumprimento de pena, porque os presos continuam trabalhando dentro do presídio, e isso tem que acabar – diz.

O salto nas apreensões de maconha é o dado mais expressivo do levantamento e reforça o aumento do fluxo de grandes cargas pela região. Diefenbach pondera, no entanto, que o balanço de 2025 fechou o ano com números ainda maiores, impulsionados por uma apreensão isolada de cerca de 400 quilos.

Os números da Draco não contabilizam apreensões menores feitas por Brigada Militar, Guarda Municipal e Polícia Rodoviária Federal (PRF).


Apreensões da Draco nos primeiros seis meses de 2025 e 2026:

Substância
2025
2026
Maconha
136,13 kg
582 kg
Cocaína
3,59 kg
2,5 kg
Crack
5,85 kg
340 g
Ecstasy
1.178 comprimidos
4.280 comprimidos
LSD
0
426 pontos
Haxixe
2,24 kg
2 kg
MDMA
332,1 g
88 g
Crumble (derivado do THC):
0
117 g
Cogumelos:
0
371 g


Incineração das drogas apreendidas

Segundo o delegado Diefenbach, o material apreendido pela Draco não é incinerado em Santa Maria. O procedimento fica a cargo do Departamento Estadual de Narcóticos (Denarc), que recolhe as drogas e as encaminha para destruição, normalmente por meio de empresas com licença ambiental da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam) para operar fornos de incineração

Diefenbach relata que, após a enchente que atingiu o Rio Grande do Sul, houve dificuldades logísticas temporárias para o transporte do material até o Denarc, o que levou à contratação pontual de uma empresa na região de Cruz Alta para dar conta do volume acumulado.


PRF trabalha em conjunto com a Polícia Civil em diferentes ações

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) tem atuado como parceira recorrente da Draco nas abordagens em rodovias federais que cortam Santa Maria, prestando apoio logístico às ações da Polícia Civil. Segundo o delegado André Diefenbach, a cooperação parte de uma divisão de atribuições entre as forças.

– Temos informação e decidimos fazer a abordagem na estrada. Contamos com o apoio deles (PRF) por isso – afirma.

22 de abril de 2026, Um jovem de 29 anos, é preso por tráfico de drogas, na BR-158, nas proximidades do posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Com ele, os agentes localizaram tijolos de maconha escondidos no porta-malas do veículo, que totalizaram quase 50 quilos. Foto: Polícia Civil (Divulgação)

Entre as ações recentes da Draco e da PRF, está a prisão de um jovem com quase 50 quilos de drogas que estavam escondidos no porta-malas de um veículo.


8 de junho de 2026, Três paraguaios foram presos e uma adolescente foi apreendida, durante uma ação que resultou na apreensão de 233 quilos de maconha. A droga era transportada em um compartimento oculto de uma caminhonete Jeep Grand Cherokee, ano 2013 e com placas do Paraguai. Foto: Polícia Civil (Divulgação)

Em uma das maiores apreensões do primeiro semestre, três paraguaios foram presos e uma adolescente foi apreendida transportando mais de 230 quilos de drogas escondidos em uma caminhonete Jeep Grand Cherokee.


10 de junho de 2026, Dois homens de 30 e 35 anos foram presos por tráfico de drogas e quase 109 quilos de maconha foram apreendidos em um trecho da BR-158, em Santa Maria. Foto: Polícia Civil (Divulgação)

Já em 10 de junho, na tentativa de fugir de uma barreira policial, dois homens, de 30 e 35 anos, foram presos com mais 100 quilos de maconha. E no dia 19 do mesmo mês, durante monitoramento de uma casa no Bairro Pinheiro Machado, que seria usada como ponto de tráfico, a Draco e a PRF prenderam dois jovens de 20 e 25 anos com quase 120 quilos de maconha.


19 de junho de 2026, dois jovens, de 20 e 25 anos, são presos em flagrante, no Bairro Pinheiro Machado, na região oeste de Santa Maria. Na ação, foram apreendidos 116,65 quilos de maconha, armas de fogo, munições de diversos calibres, granadas e outros materiais utilizados por organizações criminosas. A droga e demais objetos estavam escondidos em uma residência utilizada pela dupla como ponto de tráfico de drogas. Foto: Polícia Civil (Divulgação)

Segundo o delegado, a principal rota de entrada da droga na região é a BR-158, que liga o Estado às fronteiras com Argentina e Uruguai ao norte, seguida pelas BRs 287 e 290.

– A principal rota são as rodovias. Fora isso, tem um monte de desvio, muita coisa não pegamos, muita coisa passa também – admite o delegado.

O policial rodoviário federal Jussie Pettini afirma que a maioria das apreensões é fruto do trabalho conjunto entre as forças de segurança. Com um dado importante: a maioria das drogas tinha como destino final Santa Maria.

– Entre as ações em conjunto que realizamos, três registros eram de cargas que superavam 100 quilos. E esses entorpecentes possuíam, em sua maioria, o destino final aqui em Santa Maria. Acidade é rota do transporte de drogas, mas muitas dessas apreensões tinham nosso município como destino final – diz o agente.

A PRF também registrou mais de US$ 137 mil sem origem e 110 quilos de agrotóxicos apreendidos. Nessas ações, 19 pessoas foram detidas por tráfico de drogas, e cinco veículos foram recuperados. Nos registros que envolvem armamento, três revólveres, um fuzil e uma granada foram recolhidos com criminosos.

O somatório de apreensão de maconha da PRF inclui dados conjuntos com a Draco de Santa Maria, o que leva a um total de mais de uma tonelada nos registros em 2026.


Dados dos primeiros seis meses de 2026 por parte da PRF:

  • Maconha 1.155 kg (mais de uma tonelada)
  • Cocaína 1 kg
  • Crack 0,360 kg
  • Haxixe 1,7 Kg
  • Skunk 2,4 Kg


Brigada Militar também reforça combate na cidade

Além das ações da Draco e da Polícia Rodoviária Federal (PRF), a Brigada Militar mantém operações constantes de repressão ao tráfico em Santa Maria, reunindo dados de diferentes batalhões, incluindo o Batalhão Rodoviário e o Batalhão de Choque. 

As apreensões, que são praticamente diárias, ocorrem principalmente por meio da Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam), a partir do setor de inteligência e de rondas frequentes em pontos já mapeados como locais de comércio de entorpecentes.

A BM informa que está em processo de unificação dos dados de apreensão de todos os seus batalhões na cidade, de forma a consolidar as estatísticas sob uma identidade única.

Com base nos dados obtidos no Sistema de Planejamento e Estatística da Brigada Militar, é possível observar um aumento significativo na quantidade de drogas aprendidas em Santa Maria, comparando o primeiro semestre de 2025, quando foram apreendidos 290,9 quilos de drogas, em relação ao mesmo período de 2026, em que o total já chega a 457,6 quilos, aumento de 58%.


Total de drogas apreendidas pela Brigada Militar em Santa Maria no primeiro semestre de 2025 e 2026 (somatório geral dos batalhões, em quilos):

Substância
2025
2026
Maconha
242,6
433,5
Cocaína
32,1
16,1
Crack
15,5
7,9 
Total
290,3
457,6


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