Qual o risco de um tornado atingir Santa Maria? Veja o que dizem especialistas

Qual o risco de um tornado atingir Santa Maria? Veja o que dizem especialistas

Foto: Reprodução

Tornado registrado em Giruá, no Noroeste do Rio Grande do Sul, em 28 de julho de 2026. O fenômeno, associado a uma supercélula, também atingiu áreas de Sete de Setembro e Senador Salgado Filho.

Em um intervalo de apenas nove diasdois tornados atingiram diferentes regiões do Rio Grande do SulEm 28 de julho, o fenômeno atravessou áreas da Região Noroeste, atingindo municípios como Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho. Em 6 de agosto, outro funil tocou o solo em Pedro Osório, no Sul do Estado. O primeiro foi classificado preliminarmente pela MetSul como F3, com ventos estimados em até 300 km/h, enquanto o segundo recebeu classificação preliminar F2, com ventos de até 200 km/h.

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As imagens de nuvens em rotação, funis avançando sobre o horizonte e rastros de destruição podem remeter aos cenários de filmes-catástrofe e aos tornados registrados com frequência nos Estados Unidos, popularizados por programas e documentários na televisão. Mas, apesar do impacto provocado pelos episódios recentes, o fenômeno está longe de ser estranho ao Rio Grande do Sul.

O Estado faz parte de uma região da América do Sul com condições atmosféricas favoráveis à formação de tempestades severas e tornados. Santa Maria também está inserida nessa área. O município, inclusive, possui registros históricos de prováveis tornados desde o século passado e foi palco de um dos primeiros registros fotográficos do fenômeno no Brasil, feito em 1975, na Base Aérea.

Registro de provável tornado feito em 1975 na Base Aérea de Santa Maria. A imagem é considerada um dos primeiros registros fotográficos do fenômeno no Brasil.Foto: Suboficial Moacir Moreira (Base Aérea de Santa Maria/Arquivo)

O Diário conversou com o meteorologista Murilo Lopes, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e com o doutorando em Meteorologia pela UFSM e caçador de tempestades Rafael Santana para entender por que esses fenômenos ocorrem no Estado e qual seria o potencial de destruição caso um deles atravessasse Santa Maria.


Santa Maria pode ser atingida por um tornado?

Tempestade registrada em Santa Maria em 2016.Foto: Anelise Soares (Arquivo Pessoal)

A resposta curta é sim. Mas, para entender por que isso é possível e, ao mesmo tempo, pouco provável, é preciso considerar duas características: o tamanho de um tornado e a pequena parcela do território gaúcho ocupada por áreas urbanizadas.

Para começar, é preciso olhar para o mapa em uma escala maior.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o Rio Grande do Sul possui 281.707,15 km² de área territorial. Santa Maria, por sua vez, tem 1.780,194 km², o equivalente a cerca de 0,63% da área do Estado. A proporção não representa a probabilidade de ocorrência, mas ajuda a dimensionar o município diante do território gaúcho.

E há uma segunda diferença de escala. Mesmo que um tornado toque o solo dentro dos limites de Santa Maria, isso não significa necessariamente que ele atravesse a cidade.

Da área total do município, 79,70 km² são classificados pelo IBGE como áreas urbanizadas, conforme dados de 2022. Isso corresponde a aproximadamente 4,5% do território de Santa Maria.

Essa predominância de áreas não urbanizadas também aparece quando se observa o Estado como um todo. Da área total do Rio Grande do Sul, 3.951,96 km² são classificados como áreas urbanizadas, cerca de 1,4% do território gaúcho.

A essas proporções soma-se outra característica: o próprio tornado é um fenômeno de pequena escala. Conforme Lopes, a faixa diretamente atingida costuma ter de dezenas a algumas centenas de metros de largura.

É como se nós tentássemos acertar um alvo que é muito pequeno. O valor máximo seria a cidade, ela é um ponto pequeno na área toda – compara.

Rafael Santana reforça que, embora pequena, a possibilidade existe.

– Santa Maria pode ser atingida por um tornado novamente? Pode. É muito difícil [...] Mas estamos em um corredor de tornados, em uma região com ambientes favoráveis a tornados, então pode acontecer novamente. Não precisa ter pânico nenhum, mas é um fenômeno comum no Estado – afirma.

Caso um tornado atravessasse a área urbana de Santa Maria, os danos dependeriam da intensidade do fenômeno e das estruturas encontradas pelo caminho. Murilo Lopes explica que as construções menos resistentes tendem a ser mais vulneráveis, enquanto edificações mais robustas podem sofrer principalmente danos em telhados, janelas e outras aberturas. Em tornados mais intensos, até veículos podem ser levantados.

Além dos danos estruturais, um dos principais riscos está nos objetos carregados pelo vento.

– O principal risco associado aos tornados para as pessoas, além de algum colapso de estrutura, são exatamente esses projéteis, que vão ser telhas, galhos de árvores e outras estruturas que podem ser arremessadas – explica Lopes.

A dimensão dos estragos varia conforme a intensidade do tornado. Essa classificação, feita pela escala Fujita, vai de F0 a F5, sendo F0 a categoria de menor intensidade e F5 a mais intensa. A classificação só é determinada depois da passagem do fenômeno, a partir dos danos observados e do tipo de construção atingida.


Mas como um tornado se forma?

Supercélula registrada em Carazinho, em 22 de junho de 2022, durante caçada a tempestades da qual participou o doutorando em Meteorologia Rafael SantanaFoto: Rafael Santana (Arquivo Pessoal)

Para entender por que o Rio Grande do Sul está sujeito a tornados, primeiro é preciso saber o que acontece dentro de uma tempestade para que o fenômeno se forme.

O metereologista Murilo Lopes explica que existem diferentes mecanismos de formação. A maioria dos tornados, porém, está associada às chamadas supercélulas, tempestades que apresentam rotação nos ventos. É também desse tipo de tempestade que se originam os tornados mais intensos.

– Para essa tempestade se formar, tem que ter algumas condições, como instabilidade atmosférica. Porém, ela vai precisar de um ingrediente a mais, que é o vento mudando de direção e velocidade com a altura – explica.

A mudança na direção e na velocidade dos ventos pode criar uma espécie de tubo de ar em rotação, que interage com a tempestade.

– Em alguns casos, essa rotação vai se aproximar do solo, dando origem ao tornado, formando um funil que vai se estender da base da tempestade até o solo – detalha Lopes.

O Estado integra o chamado corredor sul-americano de tornados e tempestades severas, que abrange o Sul do Brasil, além de partes de Mato Grosso do Sul e São Paulo, Paraguai, norte da Argentina e Uruguai.

– Temos frequentemente isso aqui na nossa região, essa interferência de massas de ar mais aquecidas e massas de ar mais frias. Então, isso favorece esse padrão de mudança de direção e velocidade do vento – explica Murilo Lopes.

Embora os episódios recentes possam dar a impressão de aumento, os dois especialistas ressaltam que os tornados não são um fenômeno novo no Estado e que hoje há maior capacidade de registrá-los.

– Aqueles locais no interior em que poderia acontecer um fenômeno, mas não teria registro, acabam sendo registrados pelos moradores. Os moradores mesmo fazem fotos e vídeos do tornado quando ele acontece – explica Lopes.

Santana acrescenta que alguns fenômenos do passado podem nem ter sido identificados como tornados, aparecendo em relatos como “redemoinhos” ou “vendavais”.

– Eles sempre comentam histórias de tempestades que passaram: “desceu um redemoinho, desceu um vendaval” [...] Muitos desses relatos são tornados que aconteceram – afirma Santana.

2026, o El Niño pode favorecer uma maior frequência de tempestades e de ambientes propícios a fenômenos severos, mas os dados disponíveis ainda não permitem afirmar que os tornados estejam se tornando mais frequentes.

Registro de tornado em Bossoroca (RS), em 8 de maio de 2025, durante caçada a tempestades da qual participou o doutorando em Meteorologia Rafael Santana.Foto: Mateus Rebelo (Arquivo Pessoal)


O que fazer se um tornado se aproximar?

Nem sempre um tornado é facilmente visível, já que alguns podem estar envoltos pela chuva. Rafael Santana explica que, quando perceptível, a rotação nas nuvens da tempestade já é um sinal de atenção.

– Mesmo antes do tornado formar, se está vendo rotacionar a base da tempestade, mesmo que ainda no horizonte, tu já tem que ter alguma atenção em relação a isso – afirma Santana.

Ao perceber a possbilidade de formação do ciclone, Murilo Lopes também orienta procurar abrigo em uma edificação e evitar permanecer em áreas externas.

– O ideal é procurar abrigo, entrar em uma edificação, evitar ficar na rua, evitar ficar em ambientes externos – orienta Lopes.

A Defesa Civil do Rio Grande do Sul recomenda acompanhar os alertas oficiais e adotar as medidas indicadas conforme o nível de risco. Nos níveis mais altos, a orientação é buscar abrigo imediatamente. Quem estiver em área aberta deve evitar árvores e estruturas metálicas e, se não houver abrigo, deitar-se em uma vala ou depressão do terreno e proteger a cabeça contra objetos projetados pelo vento. Confira os alertas da Defesa Civil aqui.

Arte da Defesa Civil apresenta orientações à população conforme os diferentes níveis de alerta para risco de tornado.Arte: Defesa Civil (Divulgação)
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