Foto: Vinicius Becker (Diário)
Próximo ao encerramento da colheita da soja, a Emater Regional projeta um cenário otimista em comparação aos prognósticos iniciais. Entre janeiro e fevereiro, a expectativa era de que as perdas nas lavouras pudessem chegar a 15%. Contudo, neste momento, os dados parciais apontam para uma quebra de apenas 6% na produção do grão.
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No Rio Grande do Sul, responsável por 10% a 15% da produção nacional de soja, cerca de 19 milhões de toneladas já foram colhidas. No ano passado, o Estado colheu 13,6 milhões de toneladas. Em Santa Maria, aproximadamente 3 mil toneladas foram colhidas, superando as 1,6 mil toneladas registradas na safra anterior.
O professor de agronomia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Alencar Zanon, associa a baixa quebra de safra a questão climática:
– O que faz aumentar a produtividade no Rio Grande do Sul é a precipitação e a melhor distribuição das chuvas.
“É uma safra melhor que as anteriores”
Esse mesmo equilíbrio na distribuição das chuvas é o que fundamenta a análise do gerente regional da Emater, Guilherme Passamani. Ele lembra que, embora o prejuízo no início do ciclo tenha gerado o temor de um impacto severo em toda a região, o retorno do clima favorável reverteu o cenário. Apesar do alívio nas lavouras, Passamani pontua que o desempenho positivo deve ser celebrado com cautela:

– É uma safra melhor que as anteriores, porque de fato as outras foram muito ruins. De seis safras, nós tivemos quatro estiagens e uma enchente com prejuízos fortes. É o início de uma retomada para algumas propriedades, talvez, mas é difícil afirmar para todas porque há uma situação delicada dos produtores, o preço ainda está baixo e há uma questão de endividamento meio geral na agricultura em função dos anos que vivemos no Estado.
Apesar do cenário mais favorável, a área semeada na Região Central registrou uma leve retração. Nos 35 municípios de abrangência da Emater Regional, foram cultivados cerca de 20 mil hectares a menos em comparação ao ciclo passado. O recuo é explicado pela substituição de áreas de menor produtividade por outras atividades agrícolas, como a pecuária e o cultivo de milho.
"Nossa safra esse ano foi bem satisfatória"
No interior de Santa Maria, no Distrito de São Valentim, o retorno positivo da lavoura se reflete de forma nítida no ânimo do agricultor Renato Freitas, de 70 anos. O produtor divide os mais de mil hectares de sua propriedade, a “Granja Colorada”, de maneira simétrica: metade da área é ocupada pelo cultivo de soja e a outra é destinada ao manejo de 650 cabeças de gado. O ofício da terra, herdado do pai, Francisco Paim de Freitas, já falecido, permitiu que o agricultor acompanhasse, ao longo das décadas, as transformações geracionais da atividade rural.

Ao Diário, Freitas afirmou que a safra atual representa um respiro após um ciclo de perdas financeiras – resultantes de enchentes e estiagens. Para ele, neste ano, o campo respondeu acima das expectativas.
– Nossa safra esse ano foi bem satisfatória, nós atingimos quase 3.000 kg por hectare, em torno de 58 sacas. Nós tivemos um ganho de 100%, diferente das últimas cinco safras que perdemos com baixa produtividade, médias ruins e custos muito altos – destaca o produtor.
Queda no valor da saca
Apesar do volume de grãos colhidos, o sorriso do produtor esbarra nos painéis de comercialização. O valor da soja no mercado brasileiro atingiu, em abril, o menor nível dos últimos cinco anos para este período.

Conforme a cotação divulgada pela Cotrisel na terça-feira (19), o valor da saca de soja de 60 kg estava fixado em R$ 113,00. No mesmo período de 2025, o valor correspondia a R$ 118,00. Há dois anos, em 20 de maio de 2024, o valor registrado era de R$ 119,50.
De acordo com a Emater Regional, essa desvalorização é pressionada pelo cenário geopolítico global, especialmente as tensões no Oriente Médio envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã. O conflito inflaciona o preço do petróleo e, consequentemente, encarece o óleo diesel utilizado no transporte do grão. A esse quadro soma-se a oscilação do dólar, que eleva os custos dos insumos importados e achata a margem de lucro na hora da venda. Para quem vive da lavoura, a questão se traduz em insegurança:
– Nós precisaríamos, pelo custo da nossa lavoura, trabalhar em torno de R$ 130 a saca de 60 kg e hoje nós estávamos trabalhando muito abaixo disso.
Com o encerramento da colheita, produtores como Renato Freitas apostam no plantio de culturas de cobertura para ocupar o lugar da soja. É o caso do azevém, que cumpre papel duplo ao proteger a terra e servir de alimento para o gado. Outras variedades, como o nabo forrageiro, entram no sistema para assegurar a qualidade do solo, retendo os nutrientes essenciais para os próximos ciclos.