Entre números e ausências: Santa Maria registra quase 600 desaparecimentos em dois anos

Entre números e ausências: Santa Maria registra quase 600 desaparecimentos em dois anos

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Para quem espera por notícias de um familiar desaparecido, o tempo passa de forma diferente. Entre buscas, ligações e esperanças renovadas a cada possível pista, o cotidiano é marcado pela incerteza. Em Santa Maria, 568 ocorrências de desaparecimentos foram registradas em dois anos: 273 casos em 2024 e 295 em 2025 – uma média de 284 por ano.

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Os dados mostram que a maioria das pessoas desaparecidas é adulta. Em 2024, foram 155 registros nessa faixa etária, número que subiu para 163 no ano seguinte. Entre adolescentes e jovens (12 a 18 anos), os casos passaram de 106 para 112. Já entre crianças de até 12 anos, houve aumento mais significativo, de 12 para 20 registros.

Em 2026, até o início de março, já são 43 ocorrências registradas – sendo 30 adultos, 11 adolescentes e duas crianças.


Localizações e causas

Apesar do volume de registros, boa parte das pessoas é localizada. Em 2024, foram 255 localizações, e, em 2025, 276. Ainda assim, esses números não correspondem necessariamente aos casos do mesmo período, já que muitas pessoas são encontradas anos depois – ou deixam de ser oficialmente localizadas por falta de comunicação das famílias.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Segundo o delegado regional Sandro Meinerz, a maior parte dos desaparecimentos não está ligada a crimes.

– Grande parte das pessoas que desaparecem são adultos com algum tipo de transtorno mental, problema psiquiátrico ou idosos que acabam se desorientando. Também há situações em que a pessoa simplesmente sai sem dar notícias por um período – explica.

Entre crianças e adolescentes, os casos costumam ter outra dinâmica, geralmente associados a conflitos familiares ou saídas temporárias, com retorno em poucos dias.


Como a polícia atua

Ao registrar um desaparecimento, a Polícia Civil inicia as buscas de forma imediata. As diligências incluem contato com familiares e conhecidos, verificação em hospitais, análise de câmeras de segurança e monitoramento de redes sociais e dados telefônicos. Em casos envolvendo menores, o Conselho Tutelar também pode ser acionado.

Quando há indício de crime, vamos até o fim, esgotamos todas as possibilidades. Mas, quando há sinais de saída voluntária, o trabalho passa a ser mais de troca de informações com outros órgãos e cidades – afirma Meinerz.

Um dos principais entraves no acompanhamento dos casos é a falta de atualização quando a pessoa reaparece. Muitas famílias não comunicam o retorno, o que mantém registros ativos e acaba distorcendo os dados oficiais.


Como agir em caso de desaparecimento

A orientação da Polícia Civil é que, diante do desaparecimento de um familiar, a primeira medida seja tentar contato com pessoas próximas, como amigos e conhecidos. Se não houver retorno, o registro de ocorrência deve ser feito o quanto antes.

Não é necessário aguardar 24 horas para comunicar o desaparecimento. Informações como foto recente, roupas usadas, local onde a pessoa foi vista pela última vez e possíveis motivações são fundamentais para auxiliar nas buscas.


Alerta para golpes

O cenário também tem sido explorado por criminosos, que tentam se aproveitar da fragilidade das famílias para aplicar golpes com falsas informações.

Nunca pague nada por esse tipo de informação. Na maioria das vezes, são golpes. Se alguém fizer contato pedindo dinheiro, a orientação é procurar imediatamente a polícia – reforça o delegado.


Campanha de coleta de DNA

Uma das estratégias para auxiliar na identificação de pessoas desaparecidas é a campanha nacional de coleta de DNA de familiares, coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. A iniciativa permite o cruzamento de material genético com bancos de dados em todo o país.

Registro da campanha realizada em 2024, no centro de Santa Maria. Foto: Beto Albert (Arquivo/Diário)

Em 2025 foi realizada a terceira edição da campanha, após ações realizadas em 2021 e 2024. No ano passado, o Brasil registrava cerca de 70 mil pessoas desaparecidas, com o Rio Grande do Sul ocupando a segunda posição no ranking nacional, com mais de 7,5 mil casos.

Em Santa Maria, conforme dados divulgados em agosto de 2025, 135 pessoas estavam desaparecidas. A coleta é feita mediante apresentação de documento de identificação e informações do boletim de ocorrência.


Casos que seguem sem respostas

Daniela Ferreira, Elizete Vieira da Silveira e Ana Lúcia Drusião seguem desaparecidas. Foto: Reprodução

Alguns desaparecimentos antigos ainda mobilizam famílias na região.

  • Elizete Vieira da Silveira, 31 anos - a mototaxista sumiu em 6 de janeiro de 2012, após sair para uma corrida em direção a Dilermando de Aguiar. A motocicleta foi encontrada dias depois, em São Vicente do Sul, mas o caso permanece sem solução;
  • Daniela Ferreira, 19 anos - desapareceu em Agudo, em 29 de julho de 2012, depois de sair de uma festa no Clube Centenário. Apesar da condenação de um suspeito da sua morte a 36 anos de prisão por homicídio, o corpo da jovem nunca foi localizado;
  • Ana Lúcia Drusião, 35 anos - desapareceu em 30 de maio de 2016, em Dilermando de Aguiar. O carro foi encontrado no dia seguinte, próximo de sua residência, mas a investigação sobre o caso segue inconclusivo. O marido de Ana Lúcia chegou a ser preso, mas negou envolvimento.



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