“A época boa do táxi acabou”: Santa Maria perde em média 50 taxistas por ano

“A época boa do táxi acabou”: Santa Maria perde em média 50 taxistas por ano

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Jorge Souza Gomes, 72 anos, dedicou as últimas duas décadas à profissão de taxista. A trajetória teve início com uma decisão drástica: vendeu um apartamento na Rua Tuiuti, no Centro, e com o valor - cerca de R$ 70 mil na época - comprou a concessão que lhe daria o direito de trabalhar. Durante os chamados "anos de ouro", o táxi foi o motor que sustentou sua família.

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Contudo, o faturamento passou a diminuir com a chegada dos aplicativos e a mudança de hábito do consumidor. Em 2025, a preocupação venceu o sonho: Gomes entregou as chaves do veículo. Hoje, ele se reinventou como corretor de imóveis, buscando no mercado imobiliário o complemento para a aposentadoria que o táxi já não consegue garantir.


360 motoristas a menos: os números em queda

A trajetória de Jorge Gomes não é isolada. Em apenas sete anos, o número de taxistas em Santa Maria despencou 60%, conforme dados do Sindicato dos Taxistas (Sinditáxi). Antes da pandemia, em 2018, cerca de 600 motoristas se dividiam na condução de 318 prefixos de táxi. Em 2026, o número de profissionais caiu para 240. Os dados representam uma perda de 360 taxistas no período, uma média de 50 por ano.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Os dados da prefeitura reforçam o esvaziamento: a cidade tem hoje 226 táxis ativos e 100 inativos. Em 2014, o número de prefixos parados era de apenas dois.

A lógica do setor também mudou. Antigamente, um mesmo carro era dividido por até três motoristas (o proprietário e dois auxiliares), garantindo o veículo na rua 24 horas. Após a expansão das plataformas digitais, o cenário passou por transformações.

Nelson Fávero Inácio, presidente do Sinditáxi e taxista há três décadas, explica o efeito dominó:

- Isso baixou muito o faturamento bruto. O motorista passou a ganhar menos e migrou para outras profissões, inclusive para os próprios aplicativos. Ficamos muito poucos, e esses poucos ainda resistem com dificuldade.

 

"A época boa do táxi já acabou"

Antes dos carros de aplicativo, o cotidiano de Santa Maria era marcado pelo rádio amador e pelas filas de veículos com placas que indicam "Táxi", em pontos como a Praça Saturnino de Brito, a Avenida Rio Branco e o Complexo Hospitalar Astrogildo de Azevedo. Nas casas, usuários do serviço tinham caderninhos com o telefone do taxista de confiança anotado à mão. Quando necessário, era só chamar. Mas a maioria da população usava o telefone da central de táxi, para pedir um carro.

Foto: Isadora Bortolotto (Diário)

Hoje, esse ambiente de proximidade sobrevive na memória dos santa-marienses. O aposentado Luiz Bortolotto, 76 anos, guarda em casa os registros de uma história que começou no risco. Em 1975, aos 26 anos, ele deixou Formigueiro para tentar a sorte na "cidade grande". Desembolsou 50 mil cruzeiros, na época, para comprar seu primeiro veículo - um Fusca branco -, investimento que o prendeu ao banco do motorista pelos 40 anos seguintes.

Bortolotto foi chefe de ponto na Rua Pinheiro Machado e coleciona títulos de "Motorista Padrão". Com o suor do asfalto, garantiu o sustento da família e construiu sua casa no Bairro Nossa Senhora de Fátima. Ele recorda com saudosismo a época em que o sindicato refletia o sucesso da profissão e oferecia serviços médicos e odontológicos aos associados.
Em 2018, a saúde o obrigou a parar. O ponto passou para o filho, Rodrigo Luiz Bortolotto, 44 anos, mas a tradição sucumbiu à economia. Em 2024, o filho deixou o táxi após meses em que o lucro não passava de R$ 100. Atualmente, Rodrigo trabalha em uma oficina mecânica.

Foto: Isadora Bortolotto (Diário)

O impasse enfrentado pelo filho reflete no desabafo do pai, que, de cabelos brancos e apoiado em sua bengala, não vê um horizonte promissor para a profissão.
- A coisa está feia, mas vai ficar pior. A época boa já acabou. Queria que pudessem voltar tudo de novo, que eles ficassem bem como eu fiquei no começo - diz Bortolotto.

 

Tecnologia e burocracia

Para tentar sobreviver, a categoria buscou inovar. Em 2022, houve negociações para lançar um aplicativo próprio, o Táxi Digital, mas o projeto não avançou. Segundo o sindicato, a prefeitura não cumpriu a promessa de auxiliar no processo.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Além disso, os custos fixos afastam os jovens. Carteira Nacional de Habitação (CNH) com EAR (Exerce Atividade Remunerada), curso de capacitação, taxas municipais (Condutax) e seguros específicos formam uma barreira que os aplicativos, com menos exigências, não possuem. Como tentativa de equilíbrio, a categoria aguarda um reajuste médio de 12% nas tarifas para este ano. O aumento já foi aprovado pelo Conselho Municipal de Transportes, mas depende de decreto do Executivo.

 

Flexibilização das concessões e o impasse municipal

Outro ponto crítico para a categoria envolve a titularidade das concessões. Embora a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) tenha aprovado o Projeto de Lei 680/2024, que autoriza a transferência da outorga para terceiros em nível federal, a legislação brasileira prevê que os municípios têm autonomia para decidir como regulamentar o serviço localmente. Em Santa Maria, o Executivo optou por uma regra mais rígida.

A Lei Municipal 5.863/14 proíbe o repasse da concessão a terceiros, restringindo a transferência apenas a herdeiros diretos (sucessão hereditária). Na prática, essa trava legal impede que o taxista transfira seu ponto, resultando em um envelhecimento acentuado da categoria. Sem a possibilidade de transferir a licença para novos profissionais, muitos motoristas veteranos permanecem na ativa apenas para não perder o patrimônio.

Segundo o Sinditáxi, a categoria agora busca uma agenda com a prefeitura para adequar a legislação municipal à tendência federal. O objetivo é permitir que o taxista tenha o direito de vender sua concessão, garantindo uma saída digna para quem deseja se aposentar e abrindo as portas para a renovação do serviço na cidade.


O que diz a prefeitura

Questionada pela reportagem, a prefeitura de Santa Maria informou que a regulamentação do transporte por aplicativo ainda está em fase de estudo. Sobre o aplicativo próprio para taxistas, a Secretaria de Serviços Públicos esclarece que a ideia era de uma gestão anterior e que, atualmente, não há tratativas para auxílio municipal na plataforma digital.

A secretaria informa, ainda, que a intenção é realizar a modernização da lei referente aos táxis. A pasta recebeu uma minuta do sindicato da categoria, está analisando a proposta, para posteriormente discutir com os profissionais as alterações previstas. No momento, não há nada finalizado.


Incerteza nos aplicativos

Foto: Vinicius Becker (Diário)

A crise dos táxis ocorre em paralelo à mobilização dos motoristas de aplicativo. Na última terça-feira (14), a categoria protestou em Santa Maria contra o PLP 152/2025, que propõe um novo marco legal para plataformas como Uber e 99. A votação do projeto na Câmara dos Deputados foi adiada sem nova data definida, mantendo o cenário de incerteza para todo o setor de transporte individual na cidade.
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Vitória Sarturi

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