O cão, os adolescentes e a ilusão da solução penal

Autor: Guilherme Pitaluga

A morte violenta de um cão por adolescentes produziu indignação imediata e legítima. O episódio chocou, mobilizou emoções e reacendeu, como costuma ocorrer, o debate sobre a redução da idade penal. O tribunal da internet entrou em cena exigindo respostas rápidas, duras e exemplares. Diante de fatos extremos, porém, talvez o desafio do Direito não seja amplificar o clamor, mas pensar com responsabilidade. O que realmente acontece quando se escolhe punir mais cedo?

+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp


A gravidade do fato

Não há relativização possível. Trata-se de violência grave, inaceitável, que exige resposta, inclusive estatal. Reconhecer isso é o ponto de partida, não o ponto final. A pergunta central não é se deve haver responsabilização, mas qual modelo de responsabilização produz efeitos reais de proteção e socioeducação, e quais apenas aliviam momentaneamente a indignação coletiva ou reforçam a retórica punitivista.


Adolescente não é adulto em miniatura

O Direito distingue crianças, adolescentes e adultos por razões várias, desde empíricas (fatores biopsicossociais) a legais (constitucionais e convencionais). Não se trata de complacência ou aleatoriedade. Trata-se de um olhar para o desenvolvimento psíquico, formação moral e capacidade de compreensão. Ignorar essas diferenças não torna o sistema mais “efetivo”, apenas o torna mais punitivista, menos inteligente.


A promessa fácil da redução 

A redução da maioridade penal costuma ser apresentada como solução estrutural. Não é. Atua depois do dano, não previne nem educa. Na prática, antecipa o ingresso de jovens no sistema penal adulto, com todos os seus efeitos já conhecidos: violência institucional, reincidência elevada e ruptura definitiva de trajetórias. 


Quem assume depois?

No limite, toda proposta de recrudescimento objetiva transferir adolescentes para prisões ou regimes equivalentes por mais tempo. A pergunta direta: quem será responsável por esses jovens durante e depois da punição? O mesmo Estado que falhou antes e tende a falhar novamente? Seja quem for, o fará com menos instrumentos e mais danos colaterais.


O custo financeiro
Punitivismo não é barato. Prisões custam caro, processos custam caro, execução penal custa caro. Expandir o sistema penal para adolescentes significa redirecionar recursos que poderiam ser investidos em prevenção, educação, saúde mental e políticas de proteção integral. É realmente isso que queremos?


O custo social

E o custo maior não é contábil. Jovens inseridos precocemente no sistema penal apresentam índices altíssimos de reincidência. O cárcere não corrige trajetórias interrompidas. Frequentemente as consolida. A sociedade paga essa conta no médio e longo prazo.


Proteger não é punir mais cedo 

A comoção causada pela morte do cão é compreensível. O erro está em transformar indignação em política criminal. Reduzir a idade penal não soluciona o problema, apenas o transfere, com custos humanos, financeiros e sociais elevados. Há eventos que nos convocam a pensar nosso tempo. Talvez não seja com dedos em riste que resolveremos certas equações, e sim com mais cuidado por parte do Estado, da família e da sociedade. O Direito não late, reflete.

Polícia aponta rival comercial como mandante de incêndio criminoso em salão de festas de vereador de Santa Maria Anterior

Polícia aponta rival comercial como mandante de incêndio criminoso em salão de festas de vereador de Santa Maria

Homem é preso por latrocínio cometido há mais de 10 anos em cidade da região Próximo

Homem é preso por latrocínio cometido há mais de 10 anos em cidade da região

Plantão
Logo tv diário
Logo rádio diário

AO VIVO

ASSISTA AGORA
MAIS BEI