Polícia Civil

VÍDEO: duas pessoas são presas em operações que investigam suposto golpe do gado

Policiais civis também cumpriram outras 37 ordens judiciais em diversos municípios do Rio Grande do Sul e de outros três estados

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Foto: Polícia Civil (divulgação)

*Matéria atualizada às 18h25min de 09 de julho de 2021

Duas operações em conjunto com a Polícia Civil de Formigueiro e de Bagé resultaram na prisão de mais duas pessoas na manhã de sexta-feira durante investigação do suposto golpe da compra e venda de gado no Rio Grande do Sul. Denominadas Reculuta e Aramado, as ações tiveram como objetivo prender novos envolvidos no esquema que teria causado prejuízo milionário na compra e venda de gado para pelo menos 100 pecuaristas gaúchos. Dois mandados de prisão preventiva e outras 37 ordens judiciais foram cumpridos em diversos municípios gaúchos e de outros três Estados, resultando na apreensão de 13.674 animais em propriedades rurais. O valor em gado ultrapassa R$ 50 milhões.

Em Santa Maria, um corretor de gado, de 27 anos, foi preso em uma residência na Avenida Presidente Vargas. Já em Formigueiro, outro corretor, de 41 anos, que trabalha em um órgão público, também foi preso. O servidor teria alterado dados de um sistema estadual para incluir nascimentos de animais bovinos nos estoques do principal líder do esquema criminoso, Marco Gilberto Müller Becker Filho, assim gerando saldos suficientes para que os investigados pudessem realizar a movimentação batizada pela polícia de "gado papel".

De acordo com a Polícia Civil, neste ano, o servidor teria alterado 44 operações, totalizando 2.744 bovinos declarados nascidos. Muitas dessas operações foram realizadas em um mesmo dia. Em abril, foi registrado o nascimento de 1.139 bovinos em 18 lançamentos em sequência. Entretanto, nessa data, a propriedade possuía apenas 125 fêmeas em idade reprodutiva, o que torna improvável que tenham gerado tantos terneiros.

O aumento do número de animais em documentos falsos serviria para obter empréstimos, usando o gado como uma suposta garantia. Também poderia ser usado para venda de animais furtados ou importados para o Brasil de maneira ilegal, principalmente de países de fronteira, como a Argentina.

A Polícia Civil também apreendeu 93 bovinos, que estavam em desvio de rota e foram transportados para a propriedade rural da vítima, que ficará como depositária. Ainda conforme a investigação, os animais foram comercializados e tiveram a rota original da venda desviada pelos investigados para esconder o destino.


TOCANTINS

Durante as investigações, apurou-se uma série de movimentações suspeitas de animais bovinos. Com isso, a Delegacia de Polícia Especializada na Repressão aos Crimes Rurais e Abigeato (Decrab), de Bagé, solicitou a apreensão 12.852 cabeças de gado. Conforme a Polícia Civil, esse seria o número de animais que, no primeiro semestre de 2021, haviam sido comercializadas pelos investigados para 22 propriedades rurais localizadas em quatro Estados: Rio Grande do Sul, Tocantins, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Ao todo, sete mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Porto Alegre, Formigueiro, Caçapava do Sul, São Francisco de Assis e São Gabriel. Com exceção de São Francisco de Assis, nos outros quatro municípios também houve cinco bloqueios de bens.

A caminho de Santa Maria, carga de vinhos é apreendida em Santiago

Em Santiago, Alegrete, Uruguaiana, Santana da Boa Vista, Coxilha, Alegrete, Tupanciretã, Júlio de Castilhos, Santa Barbara do Sul, Piratini, São Francisco de Assis, Itaara e Boa Vista do Incra, 19 bloqueios de estoque de animais bovinos foram decretados.

Em municípios de outros Estados, como em José Bonifácio no Estado (SP), Água Clara (MS) e até mesmo em Pau D'Arco (TO), também houve bloqueios de estoque de cabeças de gado.

O termo "reculuta", que dá nome a uma das operações, significa buscar, recuperar um animal que se perdeu da tropa. Já aramado se refere ao local onde o gado é confinado no campo, cercado por cercas de arame.

As operações foram deflagrada pela Delegacia de Polícia (DP) de Formigueiro e pela Decrab, de Bagé, e contou com o apoio da 4ª DP de Santa Maria e do Departamento de Defesa Agropecuária da Secretaria de Agricultura.

Para o delegado André Mendes, titular da Decrab de Bagé, os crimes começam a ser solucionados e apontar os envolvidos. 

- Nessas ações, a gente bloqueou um grande volume de animais. Uma série de produtores não poderão movimentar esses animais até que as investigações possam evoluir. Foram presas duas pessoas pelo crime que estamos investigando e também foram bloqueados bens de cinco pessoas. Agora, pretendemos avançar nas investigações que já estão em andamento no sentido de identificar a participação e mensurar as circunstâncias de como as coisas aconteceram. Tem uma série de vítimas e a satisfação que a polícia precisa dar para essas vítimas, vai se dar a partir do momento que a gente conseguir entender todo o esquema - diz o delegado.

Já o delegado Antonio Firmino de Freitas Netto, titular da Delegacia de Formigueiro, destaca o saldo positivo das duas operações e que a polícia está trabalhando para solucionar o crime. 

- Essas ações fazem com que a comunidade veja a resposta que os órgãos constituintes estão dando. A Polícia Civil, A Secretária de Agricultura e demais órgãos. A gente vai juntando material para mais ou menos garantir os prejuízos das vítimas e responsabilizar os culpados - finaliza Firmino. 

As operações desta sexta-feira, acendem uma luz no fim do túnel para as vítimas, que voltam a ter esperança de reaver parte dos prejuízos. Wagner Grigoletto, uma das vítimas diz estar aliviado.

- Estou com a alma, pode-se dizer, lavada. A gente estava esperando noticias boas. Hoje eu abri um sorriso e vou conseguir dormir tranquilo. Estou muito feliz mesmo. A polícia fez um ótimo trabalho - desabafou. 

A reportagem tentou falar com os advogados dos dois suspeitos presos, mas não conseguimos contato na sexta-feira.

Foto: Polícia Civil (divulgação)

INOCÊNCIA

No primeiro depoimento à polícia, em 29 de junho, Becker Filho deu sua versão sobre o caso e disse ser inocente. O atravessador negou que tenha dado um golpe contra pecuaristas gaúchos e confessou que não tem dinheiro para pagar as suas dívidas de R$ 30 milhões nem gado para devolver. Acompanhado da advogada, Ana Elisa Telesca Mota, ele disse que também foi enganado por corretores de gado que negociavam os animais que ele adquiria.

*Colaborou Laíz Lacerda

COMO FUNCIONARIA O GOLPE

- As operações Reculuta e Aramado fazem parte da investigação do suposto golpe do gado, que teria lesado pelo menos 80 pecuaristas em 14 cidades do Estado

- O principal suspeito é o atravessador Marco Gilberto Müller Becker Filho. Ele atuava há pelo menos dois anos no ramo de compra e venda de animais

- Segundo os produtores, o suspeito adquiria o gado por preço acima do valor de mercado, para pagamento a prazo, e o revenderia a preços mais baixos em remates com pagamento à vista

- Além de Becker Filho, outras três pessoas, todas corretoras de gado, foram presas até agora por suspeita de envolvimento no esquema. Um deles é um servidor público que fraudaria informações do sistema da Inspetoria Veterinária em Formigueiro

- Becker Filho está preso no Presídio Estadual de Caçapava do Sul desde 22 de junho

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