Transporte e insegurança fazem 40% das mulheres desistirem de emprego no país, aponta pesquisa

Transporte e insegurança fazem 40% das mulheres desistirem de emprego no país, aponta pesquisa

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Quatro em cada dez mulheres no Brasil já abriram mão de uma vaga de emprego ou de uma oportunidade profissional por dificuldades de deslocamento. Falta de segurança, custos, tempo e distância estão entre os fatores que influenciam essas decisões, conforme a pesquisa "O Direito de Ir, Vir e Viver", divulgada nesta quarta-feira (23).

O levantamento foi realizado pela Indique, consultoria de diversidade e inclusão racial, em parceria com a organização feminista Think Eva e a 99, aplicativo de caronas.

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Mais da metade das entrevistadas, 54%, também já deixou de comparecer a um compromisso de trabalho ou recusou um convite profissional pelos mesmos motivos. Outras 21% desistiram de alguma capacitação, incluindo faculdade.

Os impactos também aparecem na vida social e no bem-estar. Oito em cada dez mulheres já faltaram a encontros, eventos ou atividades. Um terço deixou de realizar atividades físicas ou de lazer e de visitar familiares e amigos. Quando se trata de sair à noite, 69% já abriram mão da atividade.


Insegurança é principal dificuldade

A pesquisa ouviu 564 mulheres de diferentes idades, classes e regiões do país. Entre elas, 32% apontaram a insegurança ou a violência como principal impedimento para os deslocamentos.

A falta de dinheiro aparece em segundo lugar, mencionada por 22% das participantes. Na sequência estão a precariedade do transporte público, apontada por 15%, e a distância dos locais para onde precisam se deslocar, citada por 14%.

A sensação de insegurança também interfere na maneira como as mulheres circulam pelas cidades. Ao todo, 87% evitam determinados bairros ou regiões e 73% planejam os horários dos deslocamentos. Além disso, 63% já evitaram algum meio de transporte e 60% fizeram outro caminho até o destino para se proteger.

Uma das participantes relatou ter sido aprovada em uma graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas não conseguiu cursá-la porque não chegaria ao campus a tempo. Ela havia deixado de utilizar ônibus depois de ter sido assaltada diversas vezes.

O assédio sexual também aparece entre as preocupações. O levantamento aponta que 89% das entrevistadas relataram ter sofrido assédio em pelo menos uma forma de deslocamento. O ônibus concentra o maior percentual, com 68,8%, seguido pelos trajetos a pé, com 60,8%, e pelo metrô ou trem, com 50,2%.

Bicicletas e motos por aplicativo aparecem como os meios em que as participantes se sentem menos vulneráveis, embora também tenham sido citados por 6,6% e 4,1% das entrevistadas, respectivamente.


Carros por aplicativo

Os carros por aplicativo são utilizados de forma recorrente por oito em cada dez mulheres ouvidas na pesquisa. Apesar disso, o custo é maior para 67% das entrevistadas que vivem em periferias e áreas com deficiências estruturais e de transporte.
No total, 68% das participantes não têm veículo próprio e 52% gastam mais de uma hora por dia em deslocamentos. Quase metade considera as condições de mobilidade do local onde vive piores do que as encontradas no centro da cidade, enquanto 33% classificam o transporte público do próprio bairro como ruim ou péssimo.

A renda também interfere no meio de transporte utilizado. Entre as mulheres de baixa renda, 80,3% usam ônibus regularmente, ante 52,1% entre aquelas de alta renda. Já o carro próprio é utilizado regularmente por 40,6% das mulheres de alta renda e por apenas 8,3% das participantes de baixa renda.


Mulheres como cuidadoras

As responsabilidades relacionadas ao cuidado também interferem nos deslocamentos. Conforme o estudo, 54% das entrevistadas afirmam exercer sozinhas esse tipo de trabalho, enquanto 38% dividem as tarefas com outras pessoas.

Para muitas mulheres, por isso, o percurso diário não se resume ao trajeto entre casa e trabalho. Ao todo, 43% planejam sozinhas deslocamentos relacionados ao cuidado, como idas à escola, consultas médicas, farmácias e compras. Outras 44% escolhem o meio de transporte levando essas responsabilidades em consideração.

Os carros por aplicativo são utilizados por 53% das mulheres quando precisam transportar dependentes, como filhos, idosos ou pessoas com deficiência.


Sobre a pesquisa

A etapa quantitativa do levantamento foi realizada entre 8 de junho e 9 de julho de 2026, com 564 mulheres entre 18 e 60 anos.

A pesquisa teve foco nas capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Manaus e Belém, além de outras 73 cidades brasileiras.

O estudo também reuniu contribuições de especialistas em áreas como planejamento urbano, direito à cidade, mobilidade feminina, desigualdades territoriais, periferias e mobilidade ativa.

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