“Para, pai, não mata a minha mãe”: vítimas relatam como sobreviveram a tentativas de feminicídio em Santa Maria

Autor: Rian Lacerda

“Para, pai, não mata a minha mãe”: vítimas relatam como sobreviveram a tentativas de feminicídio em Santa Maria

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Ameaçada após pedir separação, mulher sobrevive a tentativa de asfixia em Santa Maria.

A pressão de um travesseiro sobre o rosto de uma mulher, como forma de calar um pedido de divórcio, só parou quando o filho do casal, na porta do quarto, disse: “pai não mata a mãe”. O relato faz parte da escalada de um ciclo que começa com proibições e culmina, muitas vezes, na tentativa de homicídio. A mulher, que sobreviveu à asfixia em Santa Maria, tem o apoio da Patrulha Maria da Penha da Brigada Militar, que somente nos três primeiros meses deste ano visitou mais de 500 mulheres no município. As fiscalizações de medidas protetivas ocorrem enquanto o Estado contabiliza 27 casos de feminicídio em 2026.

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"Desmaiei e acordei com meu filho chorando em cima de mim", conta vítima de agressão 

Mulher relata agressões e ameaças após comunicar desejo de divórcio em Santa Maria.Foto: Vinicius Becker (Diário)

Por segurança, o Diário não irá revelar nomes, idades e nem endereços das vítimas. A primeira vítima, que está na faixa dos 40 anos, relata uma década de convivência marcada por um ciclo de restrições e violência. O relacionamento mudou após o ex-companheiro interromper um tratamento com medicamentos e passar a consumir bebidas alcoólicas. As brigas se intensificaram e o controle sobre ela a deixou distante do convívio social. O isolamento durou cinco anos e ocorreu durante um período em que ela enfrentava uma doença.

– Começa com uma crítica na roupa, com ciúmes, daqui a pouco é um puxão no braço, é um puxão no cabelo. Ele me tirou do círculo de amigos, me fazia achar que eles não gostavam de mim – relata.

Não demorou para começar a violência física. Ela detalha que o companheiro transferia a responsabilidade da agressão que ela recebia, para ela mesmo, justificando o lado dele. Isso fez com que a vítima duvidasse de si própria.

– É aquela coisa que a gente fica: "Mas será que eu estou louca? Será que foi isso mesmo?". Na hora da briga, a gente fica pensando se realmente se colocou nessa situação de risco. Fica uma incógnita se o agressor realmente está te agredindo ou se tu te colocaste naquela situação – descreve.

O limite para a denúncia definitiva ocorreu após sofrer um golpe conhecido como mata-leão, comum no jiu-jítsu. Após isso, ela desmaiou e acordou com o próprio filho chorando em cima dela. Esse foi o último episódio dentro do relacionamento, mas não o único que sofreu.

Mesmo com o término, o ex-marido continuava a procurá-la. Ela chegou a pesquisar como denunciar após ver que precisava de proteção. As perseguições continuaram até que, um dia, ela conseguiu denunciar.

Com a voz embargada, ela fala sobre as visitas que passou a receber da Patrulha Maria da Penha. Hoje, mantém contato e relação de amizade com os soldados Maiquel e Stéfani.

– Hoje me emociona, porque me sinto protegida. Sei que, se não fosse por eles, o negócio poderia ter ficado bem pior.

Como apoio para outras mulheres, a palavra é coragem.

– Sei que não é fácil sair desse ciclo, de respirar e ter o "eu posso, eu consigo". Quando tu estás dentro de um relacionamento tóxico, é difícil de entender. A primeira coisa é procurar se entender, procurar ajuda psicológica. Procurar ter a rede de apoio, porque a gente desfaz inclusive a relação com a família – afirma.


Mulher sobreviveu após ser sufocada com travesseiro

A segunda vítima, na casa dos 30 anos, narra a perda gradual do convívio social. O ex-companheiro exigia a permanência dela em casa e restringia idas à academia e momentos de lazer. Ela percebeu o afastamento de amizades logo após o início do relacionamento.

Ela notou que não queria mais se relacionar com o agressor quando o próprio filho, que estava doente, precisou tomar medicação. Ela conta que, ao acordar e pedir ajuda, ele "explodiu". Emocionada, a mulher recorda a situação.

Ele levantou e quebrou o antibiótico. Foi o remédio no chão, o dinheiro gasto, e ele ficou extremamente furioso. Ele explodiu porque estava dormindo e não queria se incomodar. Muitas vezes, o meu filho via quando ele estava alterado e ia para debaixo da cama de medo – lembra.

Ela relata episódios de violência física, patrimonial e sexual. O homem barrava a porta para impedir saídas, puxava o braço da vítima e quebrava celulares para evitar o contato com outras pessoas. O limite ocorreu quando ela comunicou o desejo de separação.

A física foi quando eu disse que não queria mais. Foi o primeiro não que ele recebeu. Quando eu disse que queria um divórcio, ele respondeu com uma faca na mão: "Se não mudares de ideia, vou te sangrar na frente do teu filho". Fiquei uma hora na sacada com ele com a faca na mão. Vários vizinhos passaram na rua e ninguém fez nada – relata.

Em outro episódio, ao revelar a insatisfação com o relacionamento, houve mais uma tentativa de feminicídio. Após demonstrar a insatisfação, ele a levou para o quarto e, em cima da cama, com um travesseiro, veio o episódio que faz a vítima relembrar que só está viva por conta de um pedido do próprio filho, criança, que presenciou a cena.

– Ele subiu para cima de mim com o travesseiro, colocou no meu nariz e nos meus olhos, e falou: "Vou terminar aquilo que eu comecei". O meu filho veio de pé no chão e ele só parou porque olhou na porta e ele (filho) disse: "Para pai, não mata a minha mãe" – descreve ela, chorando.

Sem contar aos pais sobre a agressão, a vítima encontrou auxílio no emprego no dia seguinte. A chefe percebeu seu estado e a acompanhou até a delegacia de polícia. Com a denúncia, a Patrulha Maria da Penha iniciou as visitas de fiscalização no endereço dela.

– Foi um acolhimento tanto para mim quanto para minha família. Toda vez que eles visitavam e faziam a renovação da medida, perguntavam se ele (ex-marido) estava respeitando as protetivas. Eu percebia que isso trazia segurança tanto pra mim quanto pros meus pais. É um trabalho muito sério e que acompanha a gente de perto, vai formando um vínculo que nos ajuda.

Apesar de tudo que passou, hoje, ela diz se sentir fortalecida. Longe do relacionamento, ela percebe que a coragem para criar o filho a não ser um perfil agressor. Como mensagem para pessoas que sofrem agressão, ela reforça a possibilidade de rompimento da relação.

– Sempre falo que é muito melhor as crianças terem uma mãe viva do que não ter. Por mais difícil que seja, a gente precisa ter coragem de terminar com esse ciclo. Existe vida após a violência. Mesmo com medo, mesmo com insegurança, existe vida. É possível, sim – conclui.


Confira as histórias da vítimas atendidas pelas Patrulha. 


Como pedir ajuda:

Delegacia Online

Centro de Referência da Mulher (CRM)

  • Onde: Rua Tuiuti, 1.835, Centro
  • Quando: Segunda a sexta, das 8h ao meio-dia e das 13h às 17h
  • Informação:Telefone (55) 3174-1519 / WhatsApp (55) 99139-4971
  • E-mail:[email protected]

Defensoria Pública de Santa Maria

  • Endereço: Alameda Montevidé, 308, Sala 101, Nossa Senhora das Dores
  • Quando: Segunda a sexta, meio-dia às 18h
  • Telefone: (55) 3218-1032 e 129
  • E-mail: [email protected]
  • Em casos de emergência, disque 180 ou acione a Brigada Militar pelo 190

Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA)

  • Onde: Avenida Nossa Senhora Medianeira, 91, Bairro Medianeira
  • Quando: 24 horas.
  • Telefone: (55) 3174-2225 ou 190

Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam)

  • Onde: Rua Duque de Caxias, 1.159, Centro
  • Quando: Segunda a sexta, das 8h30min ao meio-dia e das 13h30min às 18h
  • Telefone: (55) 3174-2252 ou (55) 98423-2339

Rede de apoio

  • Central de Atendimento à Mulher: 180
  • Centro Integrado de Operações de Segurança Pública de Santa Maria (Ciosp): 153


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