Foto: Vinicius Becker (Diário)
Litro do combustível chega a custar quase R$ 8 em alguns postos de Santa Maria
Uma palavra com seis letras tem sido fonte de preocupação para diversos setores da economia e da administração pública nas últimas semanas: o diesel.
A combinação de fatores internacionais e internos tem provocado uma escalada no preço do combustível e restrições no abastecimento na região central do Rio Grande do Sul. A guerra no Oriente Médio, com impacto direto sobre a cotação do petróleo, o aumento da demanda em meio à colheita da safra e o movimento de estocagem por parte de empresas e consumidores formam o tripé que explica a atual crise. Em Santa Maria e região, há problemas pontuais de falta de diesel, com alguns postos que ficam temporariamente sem o produto, mas as distribuidoras e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) afirmam que não há risco de desabastecimento de diesel e gasolina.
O resultado já é sentido em cadeia: combustível mais caro, entrega reduzida pelas distribuidoras e risco de desabastecimento em setores estratégicos. E tudo isso começa a desencadear aumento do custo dos fretes e deve provocar alta de 3% a 5% nos preços de alimentos e produtos nas próximas semanas, se o problema persistir.
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O que está acontecendo?
O cenário atual é resultado de uma pressão simultânea sobre oferta e demanda. No mercado internacional, o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã elevou o preço do petróleo, sobretudo pela instabilidade em rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa da produção mundial. Em poucos dias, o barril do tipo Brent saiu de cerca de US$ 70 para patamares superiores US$ 100, encarecendo a importação de derivados. Nesta quarta (18), o barril está em alta de 5%, cotado a 108,70 dólares - alta de 50% em comparação com fevereiro, antes do início da guerra.
No Brasil, embora a Petrobras tenha anunciado reajuste de R$ 0,38 por litro às distribuidoras, esse valor não reflete a realidade completa do mercado. Importadores independentes, responsáveis por cerca de um quarto do diesel consumido no país, já operam com custos mais elevados e repassam aumentos superiores a R$ 1,50 no litro, criando uma defasagem e pressionando toda a cadeia.
Há ainda um componente logístico relevante: distribuidoras passaram a fracionar entregas e priorizar clientes estratégicos, o que reduz a previsibilidade do abastecimento. Em Santa Maria, postos relatam que recebem volumes menores do que os pedidos e, em alguns casos, com atraso de dias. Na cidade, a variação de preços já supera R$ 1 entre estabelecimentos, com o litro do diesel chegando próximo de R$ 8 em alguns casos e aumento de R$ 0,26 da gasolina em uma distribuidora.
O frete está 15% mais caro, segundo a Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), o que impacta em aumento de custos para todos os produtos e serviços que dependem de transporte, inclusive os combustíveis. O etanol anidro, usado na mistura da gasolina, é trazido para cá de estados como Mato Grosso e São Paulo. A gasolina e o diesel vêm de Canoas ou Rio Grande.
Esse ambiente alimenta um comportamento defensivo no mercado. Empresas tentam antecipar compras para formar estoque, enquanto postos elevam preços para compensar a reposição mais cara. O resultado é um ciclo de pressão que amplia a percepção e o risco real de desabastecimento.
Aumento também no supermercado
O setor supermercadista sente os efeitos de forma gradual, mas consistente. O diesel influencia diretamente o custo logístico, desde o transporte de mercadorias até a distribuição entre centros de abastecimento e lojas.
— A questão do transporte nós já estamos falando em 15% de aumento dos fretes. No geral do custo do produto, isso já representa um reflexo de 3% a 5% — afirmou o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), Lindonor Peruzzo Júnior.
Embora o repasse ao consumidor ainda não tenha ocorrido, na grande maioria dos casos, ele é considerado inevitável e deve ocorrer daqui a um mês. Isso porque os estoques atuais foram adquiridos antes da alta mais recente, mas a reposição já ocorre com custos maiores.
— Esse impacto vai vir a médio prazo, pois os supermercados costuma trabalhar com estoques de 30 dias. Com o combustível mais alto, tudo acaba subindo — disse.
Empresas têm buscado mitigar o impacto com medidas operacionais, como otimização de rotas, aumento da eficiência logística e negociação com fornecedores. Ainda assim, há preocupação com a regularidade no abastecimento, especialmente em cidades mais afastadas dos grandes centros de distribuição.
Pressão no transporte coletivo
O transporte urbano é altamente sensível a variações no diesel, já que o combustível representa uma das principais fatias do custo operacional. Em Santa Maria, a Associação dos Transportadores Urbanos (ATU) projeta aumento mensal de R$ 365 mil apenas com a alta recente.
— Vivemos um momento totalmente adverso e um problema muito grande que é a escassez do diesel. Vamos pedir a redução do número de horários nas linhas em dias de semanas, sábados e domingos. Temos de adequar o sistema para equilibrar a situação — afirmou o presidente da entidade, Luiz Fernando Maffini.
O sistema local consome cerca de 247 mil litros por mês e roda aproximadamente 650 mil quilômetros. Com a irregularidade no fornecimento, empresas passaram a operar com menor margem de segurança nos estoques, o que aumenta o risco de interrupções.
Além do impacto direto no custo, há um efeito estrutural: a necessidade de readequar a oferta de viagens. A ATU pediu eventual redução de horários, o que poderia afetar principalmente trabalhadores e estudantes, que dependem do transporte público diariamente. Em paralelo, cresce a pressão por subsídios do poder público ou por uma nova revisão tarifária, o que renova o debate sobre o equilíbrio econômico do sistema. A prefeitura já afirmou que não pretende reduzir as linhas e horários de ônibus e não tem previsão de pagar subsídio pedido pela ATU, mas que segue monitorando a situação.
Impacto na colheita
No campo, a preocupação é ainda mais sensível. O diesel é insumo essencial para a colheita, especialmente da soja, principal cultura da região. Em propriedades do interior de Santa Maria, produtores relatam dificuldade para garantir o combustível necessário.
A situação é agravada pelo momento do calendário agrícola. Com parte da safra já pronta e a demanda por máquinas e transporte em alta, qualquer interrupção no fornecimento pode gerar perdas significativas.
— Isso tem nos criado um clima de pavor no produtor rural gaúcho, porque é uma preocupação de nós chegarmos na hora da colheita e não termos diesel para colher — afirmou um dos vice-presidentes da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Sérgio Renato Rossi.
A avaliação é reforçada por lideranças municipais da região. O prefeito de Agudo e presidente da Associação de Municípios da Região Central do Rio Grande do Sul (AM Centro), Luis Henrique Kittel, destaca que o problema ocorre justamente no momento mais crítico do calendário agrícola.
— O que me preocupa nisso tudo são logicamente as questões essenciais, mas principalmente nós que somos movidos pela agricultura. Essa crise está acontecendo no ápice da colheita e isso é extremamente prejudicial para o Rio Grande do Sul e principalmente para os produtores — afirmou.
Além do risco de falta, o aumento do custo é expressivo: em poucos dias, o litro saltou de cerca de R$ 5,20 para mais de R$ 7 na maioria dos municípios da região. Isso pressiona as margens e pode comprometer decisões operacionais no campo, como o ritmo da colheita e o transporte da produção. Há também impacto indireto, com elevação no custo de fretes e de insumos importados, ampliando a pressão sobre toda a cadeia do agronegócio.
Serviços públicos podem ser paralisados
A crise já atinge a capacidade de operação de serviços essenciais. O município de Formigueiro decretou situação de emergência diante da dificuldade de acesso a combustíveis, especialmente diesel.
A medida reflete um cenário que tende a se espalhar. Segundo Kittel, a situação ainda é controlada em parte das cidades, mas com sinais claros de deterioração. Ele afirma que associações de municípios têm mantido contato direto com a Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) para garantir apoio estadual e federal neste momento.
— Nós estamos acompanhando essa situação diuturnamente. Já avisamos a Famurs e estamos monitorando o dia a dia com os prefeitos. Hoje, na maioria dos municípios, ainda não falta combustível, mas já há pedidos de reequilíbrio de valores — explicou.
Ele detalha que o impacto já atinge contratos públicos e a gestão financeira das prefeituras:
— Os fornecedores não estão conseguindo entregar o diesel pelos valores das licitações e pedem revisão. O município precisa justificar como um contrato que era de R$ 5 passa para R$ 8,50 de um dia para o outro, até porque o Tribunal de Contas e o Ministério Público cobram isso. (Decretar situação de emergência) é mais uma questão do município se resguardar juridicamente em relação a esse problema — afirmou.
Na prática, a tendência é de priorização de serviços.
— Tem municípios que já estão parando algumas máquinas para manter saúde e educação. Infelizmente, a contrapartida disso é que alguns serviços, tanto de agricultura e de obras, devem ser prejudicados porque vamos ter que optar por outras situações essenciais — disse.
Kittel também faz um alerta sobre o curto prazo:
— A nossa preocupação é daqui a duas ou três semanas. Se o cenário não mudar, a pergunta não vai ser mais sobre o preço, mas sobre a falta de combustível — projetou.
Caminhoneiros ameaçam paralisação
O transporte de cargas vive um cenário de tensão crescente e já com articulação nacional. O aumento acumulado de 18,86% no preço do diesel desde o fim de fevereiro acelerou o movimento de mobilização da categoria.
Entidades como a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL) declararam apoio à paralisação e cobram medidas do governo federal para conter o que classificam como aumentos abusivos. A articulação é liderada por organizações como a Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava) e o Sindicato dos Caminhoneiros de Santos (Sindicam).
O governo federal reconhece o risco e tenta mitigar a crise. Entre as medidas anunciadas está a zeragem das alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel. No entanto, o efeito foi limitado, já que, na sequência, a Petrobras promoveu um reajuste de 11,6% nas refinarias, mantendo a pressão sobre os preços.
Na região de Santa Maria, o cenário ainda é de observação, mas com sinais claros de desaceleração.
— As distribuidoras acabam retendo o produto. Os postos não conseguem comprar ou recebem apenas parte do que pedem, e isso reduz o fluxo até o consumidor final — afirmou o caminhoneiro Paulo Miola, 44 anos.
Ele também relata queda significativa na atividade:
— O movimento de caminhões diminuiu bastante, eu diria que quase 50%.
Uma eventual paralisação teria efeito imediato sobre o abastecimento de alimentos, combustíveis e insumos, ampliando o impacto da crise. Por isso, o tema é acompanhado de perto pelo governo federal, que já anunciou medidas como ajustes tributários e reforço na fiscalização.

Cenário de alerta
A crise do diesel escancara a dependência estrutural da economia regional do transporte rodoviário e a vulnerabilidade diante de choques externos. Com preços elevados, abastecimento irregular e pressão sobre serviços essenciais, o cenário exige monitoramento constante.
No curto prazo a médio prazo, a preocupação já não é apenas o custo, mas a garantia de oferta. Como resumiu o presidente da associação regional de municípios, Luís Henrique Kittel:
— Hoje está tudo funcionando, mas amanhã precisamos ver como vamos acordar.