Foto: Rafael Menezes ( Arquivo/Diário)
Um ano após a morte do menino Théo Ricardo Ferreira Felber, 5 anos, o caso que chocou o Rio Grande do Sul segue à espera de desfecho judicial. Nesta quarta-feira (25), a morte da criança completa um ano, ainda marcada pela dor da família e pela expectativa de condenação do pai, Tiago Ricardo Felber, 41 anos, autor confesso do crime, que permanece preso. Pela primeira vez desde que veio a Santa Maria para reconhecer o corpo do filho, a mãe do menino, Abigail Luisa Ferreira Felber, 31 anos, voltou a se manifestar.
O crime ocorreu em 25 de março de 2025, em São Gabriel. Na ocasião, Théo foi arremessado pelo próprio pai de uma ponte sobre o Rio Vacacaí. Conforme a investigação da Polícia Civil, na noite anterior, o vendedor de pães já havia tentado matar o filho por esganadura, mas desistiu após a criança resistir. No dia seguinte, aproveitando-se da confiança do menino durante um passeio, cometeu o crime.
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Após o fato, ele se apresentou às autoridades e confessou o assassinato, que, segundo depoimento, teria sido motivado por vingança contra Abigail.
Felber está preso preventivamente desde 21 de abril de 2025 na Penitenciária Estadual Modulada de Uruguaiana. Ele foi indiciado por tentativa de homicídio, homicídio qualificado e ameaça, e se tornou réu após a Justiça aceitar a denúncia do Ministério Público no fim de abril do ano passado. Entre as qualificadoras, estão motivo torpe, meio cruel, uso de asfixia, dissimulação e o fato de a vítima ser menor de 14 anos.
O processo, que tramita na Justiça de São Gabriel, aguarda sentença. Em setembro de 2025, foi realizada a audiência de instrução, quando foram ouvidas as testemunhas de acusação. O réu foi chamado para depor, mas optou por exercer o direito constitucional de permanecer em silêncio, e a defesa não apresentou testemunhas.
Conforme a advogada de Abigail, Anne Victória da Rosa Ganguilhet, não houve movimentações recentes no processo. Segundo ela, o caso está na fase final da primeira instância e depende da decisão da magistrada responsável.
“Aguarda prolação de sentença pela magistrada, razão pela qual, por ora, não há atualização relevante a ser prestada. Assim que houver andamento, retornarei com as devidas informações”, afirmou, em nota.
“Essa dor não passa”
Um ano depois, a dor da perda segue presente na vida de Abigail Felber, que reside em Nova Hartz, no Vale do Sinos. À reportagem, a mãe de Théo descreve o sofrimento e cobra justiça pela perda do filho.
– Eu vejo frases prontas dizendo que "tudo passa", que "nem toda dor é constante". Eu acreditava nisso até perder o meu filho. Essa dor não passa e sinceramente creio que nunca vai passar. Dói não ter minha parte mais bonita comigo. Eu vivi pra ser mãe do Theo, ele era meu mundo... Um ano sem meu bebê não é fácil. Passar por tudo que eu e minha família estamos passando, mas por ele nós seguimos, crendo na justiça dos homens e tendo certeza na justiça de Deus, guardando pra sempre na lembrança e no coração de como ele era lindo, carinhoso e muito amado. Na nossa memória o Théo jamais vai morrer. Nenhuma mãe deveria passar por isso. Eu quero que ele seja condenado com rigor por tudo que ele fez para o meu bebê. Só quero justiça, talvez assim eu consiga um pouco de paz – diz.
Théo morava com a mãe em Nova Hartz e havia ido a São Gabriel visitar o pai, que estava de aniversário. O corpo da criança foi sepultado no Cemitério Municipal de Nova Hartz.

Mudanças na defesa
Ao longo da tramitação do processo, houve mudanças nas equipes jurídicas. O advogado criminalista Roberto Leite, que atuava na defesa do réu desde a audiência de custódia, deixou o caso após relatar ameaças constantes.
Segundo ele, a decisão foi motivada por questões de segurança pessoal e familiar, após receber ameaças de morte pelas redes sociais e também de forma presencial. O advogado afirmou que sua atuação se limitava à defesa dos princípios constitucionais e negou qualquer vínculo com o crime.
A reportagem não conseguiu contato com a atual defesa de Felber.
Relembre o caso
O caso teve repercussão nacional pela brutalidade. De acordo com a investigação, Tiago Felber confessou que matou o filho como forma de vingança contra a ex-companheira, por não aceitar o fim do relacionamento. Ele chegou a relatar que pretendia assassinar a ex-mulher e o atual companheiro, mas, ao não conseguir, teria decidido matar a criança.
Após jogar o menino da ponte, o pai enviou um áudio a familiares relatando que havia feito "uma loucurinha". Em depoimento à Polícia Civil, afirmou que pretendia causar sofrimento à mãe da criança.

Laudo pericial e investigação
O laudo do Instituto-Geral de Perícias apontou que a causa da morte foi traumatismo crânio-encefálico, provocado pela queda. Os exames também identificaram sinais de esganadura, confirmando a tentativa anterior de homicídio. Segundo o delegado Daniel Severo, responsável pela investigação, o crime foi qualificado como sendo motivado por ciúmes e vingança. A polícia apontou ainda que o assassinato se enquadra como feminicídio indireto, já que teve como objetivo atingir a mãe da criança.
A denúncia do Ministério Público reforçou a gravidade do caso, destacando o meio cruel e a brutalidade do ato, além da condição da vítima, uma criança de apenas 5 anos.